Ventos Fortes em Campinas: Os Estragos Poderiam ser Menores?

“Engenheiros salvam vidas?”

É com essa pergunta que inicio minhas palestras sobre a carreira de Engenharia em feiras de profissões em escolas ou eventos similares.

Tipicamente após a pergunta, segue-se um longo silêncio…

Minha amostragem é que em apenas uma, de cada três plateias, alguém ousará respondê-la e, com grande chances, citará o cinto de segurança do carro como exemplo (seres humanos são bem previsíveis na verdade…).

Então eu prossigo:

“Uma estrada com curvas bem projetadas salva vidas?”

“Um medicamento que ataca apenas as células cancerígenas sem destruir as células saudáveis do organismo, salva vidas?”

“Um aparelho de ressonância magnética, salva vidas?”

“Um sistema de comunicação sem falhas, salva vidas?”

Lá pela sexta pergunta, percebo que eles já entenderam onde quero chegar.

Parte de Campinas está tentando se reconstruir após a grande tempestade do último domingo mas, mesmo diante de um evento atípico, não podemos deixar de lado perguntas como: “Os estragos poderiam ter sido menores?”, “Nosso tempo de reação e socorro às pessoas foi adequado?”, “Poderíamos ter previsto com maior antecedência o potencial destrutivo da tempestade?”

Campinas é uma região onde os ventos sempre sopraram fortes, isso nunca foi uma novidade. Ainda me recordo da tempestade de 1995 que carregou consigo 250 toneladas da cobertura do Ginásio da Unicamp. Em 2012, o Jornal da Unicamp destacou a tese de Daniel Henrique Cândido (Instituto de Geociências) que apontou Campinas como uma das cidades na “rota dos tornados” com grande probabilidade de ocorrência de tempestades com ventos velozes.

Porém, apesar dos temporais fortes em Campinas não serem uma novidade, os estragos do temporal da madrugada de sábado realmente foram assustadores.

Entre os escombros, muitas árvores caídas…

Com espanto, notei que várias delas estavam com a parte interna de seus troncos totalmente oca.  São árvores aparentemente consumidas por cupim, que há muito deveriam ter sido podadas ou retiradas das calçadas. Em algumas regiões, impressionou a queda de grandes árvores situadas em avenidas de grande circulação de carros.

É inevitável pensar na possível tragédia caso o temporal da madrugada de sábado tivesse ocorrido durante o dia ou durante a semana.

 

Arvóre que caiu durante a tempestade em Campinas (5/6/2016), próximo à Lagoa do Taquaral. A árvore caiu em avenida de grande circulação durante os dias de semana.
Arvóre que caiu durante a tempestade em Campinas (5/6/2016), próximo à Lagoa do Taquaral, na Av. Heitor Penteado, avenida de grande circulação de carros durante a semana.

Outro grande transtorno provocado pelo temporal foi a falta de energia elétrica que durou quase 24 horas em alguns bairros, com vários episódios de desligamento nos dias seguintes.

Em outros casos, é nítida a falta de planejamento de algumas construções. O caso típico é dos grandes painéis utilizados como letreiros em estabelecimentos comerciais. Não é necessária uma chuva muito forte para assistirmos o espetáculo de placas voadoras ou retorcidas pelo vento. Dessa vez, não foi diferente e os estragos foram muito maiores.

Finalmente, outro sintoma bastante comum dos temporais em Campinas foi o trânsito caótico que se instalou devido aos semáforos desligados.

Em todos estes casos podemos identificar a falta de manutenção, fiscalização, planejamento ou projetos adequados de Engenharia.

Infelizmente, problemas dessa natureza podem ter consequências catastróficas.

Infelizmente também, parecemos ter o mau hábito de refletir sobre estas questões apenas quando grandes tragédias acontecem.

É bastante angustiante, por exemplo, constatar que centenas de jovens tiveram que morrer, antes que começássemos a discutir os sistemas de segurança contra incêndio em estabelecimentos comerciais.

É lamentável saber que foi necessário o rompimento de uma barragem, a destruição de uma cidade e um impacto ambiental sem precedentes, para que alguém questionasse a abrangência  do plano de emergência de uma grande indústria.

A engenharia salva vidas na medida em que engenheiros e profissionais técnicos de todos os níveis trabalham para prever riscos, projetar sistemas de seguranças adequados e atuar mesmo quando enfrentamos as forças da natureza e os danos são inevitáveis, mitigando os riscos, diminuindo os prejuízos e, principalmente, protegendo a vida das pessoas.

É importante nos convencermos que os investimentos em Engenharia de uma cidade, empresa ou residência, são tão primordiais quanto os investimentos em Saúde, por exemplo.

Certamente existirão outros temporais.

Sigamos o exemplo de Noé, que construiu sua arca quando ainda não estava chovendo.

Paula D. Paro Costa

Cientista desde o nascimento, Engenheira e Professora da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, na Unicamp. Atua nas áreas de processamento digital de imagens, aprendizado de máquina, ciência dos dados e computação afetiva. Nas horas vagas, trabalha para que crianças e jovens tenham contato com as áreas de ciências, engenharia e tecnologia.

3 comentários em “Ventos Fortes em Campinas: Os Estragos Poderiam ser Menores?

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  • 17 de outubro de 2016 em 17:44
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    A Engenharia Civil, particularmente a Engenharia de Estruturas – especialidade da Engenharia Civil que trata dos projetos de estruturas sujeitas à ação estática e dinâmica, incluindo a ação eólica que pode levá-las à queda (o colapso estrutural), ou melhor, ao desabamento – depende de outras áreas de pesquisa para um prognóstico mais preciso da incidência e intensidade das rajadas para o projeto de estruturas (coberturas de edifícios, edifícios altos, torres de transmissão, pontes e viadutos) seguras.
    A Engenharia de Estruturas depende de dados da Engenharia de Vento (Wind Engineering), especializada no estudo e determinação da intensidade e incidência, do período de recorrência das rajadas dos ventos, e da interferência da topografia, da existência de construções vizinhas da forma da edificação a projetar, sobre o efeito do vendo na edificação. Por sua vez, a Engenharia de Vento depende da Meteorologia. A Engenharia de Vento ainda é incipiente no Brasil, apenas a UFRS possui um polo de pesquisa, com limitações.

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