A emoção da Montanha Russa: respire fundo e um passo à frente

Oba, oba, oba que felicidade: a notícia que finalmente o artigo no qual trabalhamos nos últimos anos foi aceito para ser publicado finalmente, depois de idas e vindas!

Fonte: alearned.com/roller-coasters/ e MiNiBuDa/montaa-rusa

Neste texto quero falar acerca de uma das partes mais delicadas de trabalhar com pesquisa: publicar a nossa pesquisa ou conseguir publicar, pois existem as duas caras dessa atividade. Nem todos os artigos pelos quais trabalhei, pesquisei, dei o melhor de mim, foram aceitos para serem publicados e menos ainda aceitos sem correções, sugestões e até devolvidos com comentários terríveis. Outros em contrapartida, após algumas idas e vindas, foram aceitos com muitos elogios. Quem não passou por isso?. Contudo, meu sonho continua sendo ter um artigo aceito sem nenhuma correção ou sugestão de mudança. Como é esse processo? Na minha opinião poderia ser mais simples. Começa, claro, quando você tem uma ideia ou uma inquietude acerca de um fóssil ou um conjunto deles e a sua pesquisa se inicia. Pode ser necessário ir ao campo e procurar, coletar, descrever, fotografar, desenhar… voltar novamente ao local, verificar os seus dados de campo, ir com as suas amostras e exemplares ao laboratório, prepará-los, descrever de novo, interpretar e por fim produzir um dado e sua interpretação e começar a escrever…pensar….pensar…escrever, ler artigos relacionados ou não…discutir com um colega, alunos, acordar a noite e ficar pensando…matutando e ter a ideia de como explicar! Mudar o que se escreveu para melhor ou pior, tentar e tentar e no fim chegar a um texto que descreva o que você pensou e que transmita a sua Ideia para outras pessoas. Claro, não é só texto nas pesquisas em paleontologia em geral os artigos tem umas figuras muito lindas e bem feitas do seu material, aliás, esta é uma das partes mais importantes do texto: as prova do que você está falando. Figuras feias são um passo para o abismo, texto confuso é o próximo. Mas com todo o seu esforço por fazer o melhor possível, o sucesso não é garantido. Não tem, para mim, coisa mais difícil que abrir aquela mensagem da revista científica, em resposta ao artigo que você enviou há alguns meses e no qual trabalhou por alguns anos. Ler a mensagem do editor, que não tem como saber quais foram as dificuldades, problemas, etc. e ter seu artigo avaliado por relatores anônimos, que podem ou não acabar com todo esse esforço… o sistema de avaliação por pares. Vêm os comentários e o veredito, que você lê com o coração saindo pela boca e batendo acelerado, como ir a uma montanha russa a toda velocidade, e que fala: “aceito”, “negado”, “pode ser aceito caso você mude”, “nem mudando daria para aceitar” ou “que artigo mais legal, contudo você ainda não chegou lá”, “temos o prazer de informar que seu artigo está aceito”, etc. Um conhecido meu falava que às vezes, após algumas idas e vindas, você não quer nem escutar falar mais do seu artigo, ou em outras vezes, até tem vontade de emoldurar. Pois bem, não é fácil trabalhar com ciências; tem que estar preparado para ser constantemente questionado, arguido e não tem como escapar. Mas ainda assim, na maioria das vezes quando estudo fósseis, penso que não gostaria estar fazendo outra coisa nesse momento e que afortunada que sou por poder trabalhar com um desafio constante que me estimula e faz ter uma vida pouco rotineira, onde posso ajudar a outros a descobrir essa maravilha e a desfrutar do seu trabalho.

Não acredito que tenha colegas que nunca tiveram um artigo negado como eu, inclusive até grandes cientistas já tiveram as suas maiores contribuições não publicadas em várias ocasiões. Pelo menos não estou sozinha. O que fazer quando seu esforço não tem êxito? Quando a sua decepção ficar menor, pegue os comentários, leia, pense, mude o que achar que deve, defenda o que não é razoável e submeta de novo, e de novo, e de novo… Embora não seja fácil, pense que em cada retomada fica melhor, ou parta para outra pesquisa e experimente o infinito, pode ser que esta vez o sucesso seja seu e, quem sabe, então pegue seu artigo rejeitado mexa nele mais uma vez e submeta a outro periódico e ele seja aceito e se torne a sua melhor contribuição. Vai ver que o mundo ainda não estava pronto para ele..

Sobre Fresia Soledad Ricardi Torres Branco

Possui graduação em Geografia - Facultad de Ciencias Forestales, Escuela de Geográfia (1988), mestrado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1994), doutorado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1998), pós-doutorado no Laboratório de Geofísica Aplicada, I. Geociências, Universidade de Brasília (2008) e Livre Docência em 2013. Atualmente é professor associado do Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Geociências, desenvolve pesquisas em Tafonomia de vegetais, floras fanerozoicas da América do Sul, novas metodologias para analises paleontológicas e bioclastos associados a carbonatos.

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