HISTÓRIA DO PETRÓLEO NO BRASIL

Capa do Livro “o petróleo no Brasil: Exploração, Capacitação Técnica e Ensino de Geociências (1864-1968)”

A história do petróleo no Brasil ganha mais um capitulo. Já não era sem tempo, uma vez que a importância e a atualidade do tema assim o exigia. Para se entender a Historia do Petróleo no Brasil, é interessante entender alguns aspectos essenciais. Uma característica marcante da busca por petróleo foi a insistência num caminho nacional.

No entanto, a maioria dos textos sobre o assunto abordam a história do petróleo a partir de pontos de vista políticos ou econômicos. Explorar o petróleo no Brasil sempre foi, é claro, achar óleo. Mas, também, significou formar recursos humanos. E foi a busca pelo Petróleo que forjou a comunidade Geocientífica brasileira.

Por todos estes motivos, é de extrema importância para a história do petróleo no Brasil o recente livro da pesquisadora Drielli Peyerl. Intitula-se “O Petróleo no Brasil: exploração, capacitação técnica e ensino de Geociências (1864 – 1968) (mais informações aqui). Trata-se de uma produção acadêmica com um tema interessante e uma linguagem acessível, o que não é pouco.

Este livro foi um doutorado defendido no programa de Ensino e História de Ciências da Terra (UNICAMP). Orientada pela Prof.ª Dr.ª Sílvia Figueiroa, Drielli fez sua busca em arquivos do Brasil, do México e dos Estados Unidos. Um dos arquivos mais interessantes, entretanto, estava perto. Foi o arquivo da Coleção Frederico Waldemar Lange, depositada na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Neste arquivo  Drielli fez seu mestrado, intitulado “A trajetória do paleontólogo Frederico Waldemar Lange (1911-1988) e a História das Geociências” (2010), orientada pelo paleontólogo Elvio Bosetti (para ver mais, clique aqui). Além de Lange, surge nesta pesquisa um personagem também muito interessante, o geólogo Americano Walter Link (1902-1982). Falaremos dele mais adiante.

O primeiro capítulo do livro de Drielli, intitulado “Surge o Petróleo”, trata do início da pesquisa de petróleo no Brasil. Com o uso de diversas fontes históricas, Drielli consegue chegar até 1864, quando é publicado o decreto que cita pela primeira vez a palavra petróleo na legislação brasileira. A partir de então, a autora mostra como o petróleo vai se tornando cada vez mais importante na discussão nacional. A partir deste início um tanto tímido, o tema petróleo retorna à legislação na transição do Império para a República. No inicio, as iniciativas de busca pelo petróleo são de particulares. A partir dos anos 1920, o governo brasileiro começa a participar mais ativamente da pesquisa de petróleo em todo o território nacional.

O primeiro poço de Petróleo perfurado no Brasil (Bofete, SP)

No entanto, somente no final dos anos 1930, já no Estado Novo, é que o tema passa a um novo patamar, coma criação do Conselho nacional do Petróleo (CNP). É este conselho que passa a dirigir a pesquisa, até a primeira ocorrência na Bahia em 1939. Descoberto o petróleo, havia uma grande dúvida: como explora-lo?

No segundo capítulo, denominado “A Formação do Know-How (1938-1961)” Drielli trata da questão da contratação de técnicos estrangeiros para este serviço, o que não era visto com bons olhos no Brasil da época. A exploração deveria ser feita  pelo estado, como defendiam os nacionalistas? Ou pelas empresas estrangeiras com controle a partir do estado, como defendiam os liberais? Foi um debate importante, tendo como pano de fundo a campanha “O Petróleo É Nosso”, que culminou, em 1953, com a criação da Petrobras. No final deste segundo capitulo são utilizadas diversas fontes dos arquivos de Lange, mostrando como estava se dando a exploração de petróleo nos anos 50 e 60.

Aqui surge a figura de Walter Link, geólogo norte americano, chefe de Exploração da Petrobras de 1955 a 1961. Trata-se de um dos personagens-chave da História do petróleo no Brasil.  Mr Link redigiu, em 1961, um relatório bastante detalhado, onde fala das dificuldades de encontrar o petróleo brasileiro em terra. Link sugere, com base nos conhecimentos da época, que se deveria tentar buscar petróleo no mar. As críticas, principalmente dos setores de esquerda ao Relatório Link foram muito grandes. Sem compreender a dimensão do problema, acusavam Mr Link de derrotista, ou de atender interesses estrangeiros (mais informações aqui). Como se sabe, foi seguindo as pistas deixadas por Link que a Petrobras foi ao mar e descobriu sua verdadeira vocação. Mas isso é outra história.

O geólogo norte americano -Walter Link (1902-1982), Diretor de Exploração da Petrobras (1955-1961)

O terceiro capítulo, intitulado “Aperfeiçoamento, Profissionalização e o Ensino de Geociências (1955-1968) ” trata das primeiras tentativas de formação de técnicos brasileiros. Foi a partir dos diversos cursos de formação de técnicos do petróleo, como o Setor de Supervisão do Aperfeiçoamento Técnico (SSAT), da criação do Centro de Aperfeiçoamento de Pesquisas do Petróleo (CENAP, atual CENPES), e os diversos cursos de formação de engenheiros e técnicos de petróleo. Em 1957, surge a Campanha de formação de Geólogos (CAGE). A partir da CAGE é que surgem os primeiros cursos de geologia no Brasil.

O livro busca entender as principais políticas do país em relação a um bem tão decisivo e importante como o petróleo. Inicialmente, a pesquisa e exploração surge nas mãos de particulares. Depois, é o estado que promove a busca pelo petróleo, contra toda esperança. Os indícios geológicos de ocorrência de petróleo no Brasil nesta época eram os mais escassos possíveis.

Também é importante ver como é o petróleo que tem a capacidade de mobilizar a sociedade. É no surgimento de novas instituições cientificas e tecnológicas que foi gestada a atual comunidade geológica brasileira. A geologia brasileira surge deste estado de permanente atração e repulsão entre a comunidade geológica e a Petrobras. Todos nós surgimos deste processo, a partir da segunda metade do século XX.

Entender a história do petróleo no Brasil através do texto de Drielli Peyerl é uma fascinante jornada para compreendermos os percursos e os percalços das Geociências em nosso país.

Leitura obrigatória.

Mais leituras a partir desta:

PEYERL, DrielliFIGUEIRÔA, Silvia F. de M. . ‘Black Gold’: Discussions on the origin, exploratory techniques, and uses of petroleum in Brazil. Oil-Industry History, v. 17, p. 98-109, 2016.

PEYERL, DrielliFIGUEIRÔA, Silvia F. de M. . ‘A Petrobras prepara seu pessoal técnico’ – 1950 – 1970. Brazilian Geographical Journal, v. 3, p. 363-374-374, 2012.

 

A emoção da Montanha Russa: respire fundo e um passo à frente

Oba, oba, oba que felicidade: a notícia que finalmente o artigo no qual trabalhamos nos últimos anos foi aceito para ser publicado finalmente, depois de idas e vindas!

Fonte: alearned.com/roller-coasters/ e MiNiBuDa/montaa-rusa

Neste texto quero falar acerca de uma das partes mais delicadas de trabalhar com pesquisa: publicar a nossa pesquisa ou conseguir publicar, pois existem as duas caras dessa atividade. Nem todos os artigos pelos quais trabalhei, pesquisei, dei o melhor de mim, foram aceitos para serem publicados e menos ainda aceitos sem correções, sugestões e até devolvidos com comentários terríveis. Outros em contrapartida, após algumas idas e vindas, foram aceitos com muitos elogios. Quem não passou por isso?. Contudo, meu sonho continua sendo ter um artigo aceito sem nenhuma correção ou sugestão de mudança. Como é esse processo? Na minha opinião poderia ser mais simples. Começa, claro, quando você tem uma ideia ou uma inquietude acerca de um fóssil ou um conjunto deles e a sua pesquisa se inicia. Pode ser necessário ir ao campo e procurar, coletar, descrever, fotografar, desenhar… voltar novamente ao local, verificar os seus dados de campo, ir com as suas amostras e exemplares ao laboratório, prepará-los, descrever de novo, interpretar e por fim produzir um dado e sua interpretação e começar a escrever…pensar….pensar…escrever, ler artigos relacionados ou não…discutir com um colega, alunos, acordar a noite e ficar pensando…matutando e ter a ideia de como explicar! Mudar o que se escreveu para melhor ou pior, tentar e tentar e no fim chegar a um texto que descreva o que você pensou e que transmita a sua Ideia para outras pessoas. Claro, não é só texto nas pesquisas em paleontologia em geral os artigos tem umas figuras muito lindas e bem feitas do seu material, aliás, esta é uma das partes mais importantes do texto: as prova do que você está falando. Figuras feias são um passo para o abismo, texto confuso é o próximo. Mas com todo o seu esforço por fazer o melhor possível, o sucesso não é garantido. Não tem, para mim, coisa mais difícil que abrir aquela mensagem da revista científica, em resposta ao artigo que você enviou há alguns meses e no qual trabalhou por alguns anos. Ler a mensagem do editor, que não tem como saber quais foram as dificuldades, problemas, etc. e ter seu artigo avaliado por relatores anônimos, que podem ou não acabar com todo esse esforço… o sistema de avaliação por pares. Vêm os comentários e o veredito, que você lê com o coração saindo pela boca e batendo acelerado, como ir a uma montanha russa a toda velocidade, e que fala: “aceito”, “negado”, “pode ser aceito caso você mude”, “nem mudando daria para aceitar” ou “que artigo mais legal, contudo você ainda não chegou lá”, “temos o prazer de informar que seu artigo está aceito”, etc. Um conhecido meu falava que às vezes, após algumas idas e vindas, você não quer nem escutar falar mais do seu artigo, ou em outras vezes, até tem vontade de emoldurar. Pois bem, não é fácil trabalhar com ciências; tem que estar preparado para ser constantemente questionado, arguido e não tem como escapar. Mas ainda assim, na maioria das vezes quando estudo fósseis, penso que não gostaria estar fazendo outra coisa nesse momento e que afortunada que sou por poder trabalhar com um desafio constante que me estimula e faz ter uma vida pouco rotineira, onde posso ajudar a outros a descobrir essa maravilha e a desfrutar do seu trabalho.

Não acredito que tenha colegas que nunca tiveram um artigo negado como eu, inclusive até grandes cientistas já tiveram as suas maiores contribuições não publicadas em várias ocasiões. Pelo menos não estou sozinha. O que fazer quando seu esforço não tem êxito? Quando a sua decepção ficar menor, pegue os comentários, leia, pense, mude o que achar que deve, defenda o que não é razoável e submeta de novo, e de novo, e de novo… Embora não seja fácil, pense que em cada retomada fica melhor, ou parta para outra pesquisa e experimente o infinito, pode ser que esta vez o sucesso seja seu e, quem sabe, então pegue seu artigo rejeitado mexa nele mais uma vez e submeta a outro periódico e ele seja aceito e se torne a sua melhor contribuição. Vai ver que o mundo ainda não estava pronto para ele..

Como é a vida profissional de um paleontólogo brasileiro?

Ou… os motivos pelos quais, às vezes, atrasamos os posts?

Não se trata apenas de esclarecer os motivos pelos quais, às vezes, não conseguimos postar nas terças, ou mesmo que uma semana ou outra o nosso blog não tenha nenhum post novo. A realidade do profissional paleontólogo brasileiro não é simples. E vou lhes explicar o porquê.

Em geral, ao se optar por ser paleontólogo no Brasil, se tem três opções:

  • Formação em nível superior em Geologia, Geografia ou Biologia (na realidade não existe uma limitação quanto a qual graduação foi cursada; eu mesma conheço médicos e engenheiros que são paleontólogos); aqui temos 4 ou cinco anos de estudo.
  • Cursar pós-graduação em Geologia, Geociências ou afins, em que a área de concentração seja Paleontologia. As universidades brasileiras de maior tradição nesta área, na pós, são a UFRGS e a UFRJ.

Depois de defendido o mestrado e/ou o doutorado (que, podem representar cerca de 6 anos de estudos após a graduação, dois anos para o Mestrado e até 4 para o Doutorado), o mercado de trabalho, sob o meu ponto de vista, se resume a:

  • Trabalhar em universidades particulares ou públicas (o profissional aqui normalmente assume o papel de professor e pesquisador);
  • Trabalhar em museus (nesta categoria eu incluí paleoartistas, pesquisadores, curadores);
  • Trabalhar em empresas públicas ou privadas (pesquisadores, consultores). Aqui temos empresas de consultoria, ou mesmo o DNPM, Petrobrás, CPRM, por exemplo.

A opção 1, provavelmente, é a que mais emprega os paleontólogos brasileiros. Infelizmente eu não tenho dados numéricos para mostrar a vocês, mas digo isso em função de que o número de museus, no país, não é tão grande quanto o de universidades e faculdades. Possuindo ao menos o curso de Biologia dentre as graduações, já existe a possibilidade de contratação de um paleontólogo, pois, de acordo com o CFBio, Geologia e Paleontologia são disciplinas obrigatórias do curso. Já órgãos públicos não abrem muitos concursos na área específica de paleontologia, e o número de vagas é, normalmente, bastante restrito. Consultorias em paleontologia são bastante recentes no país, e se sustentar trabalhando unicamente nesta área, me parece inviável atualmente.

Tendo experiência profissional em universidades particulares e públicas eu posso falar com um pouco mais de detalhe e propriedade sobre as atividades que se assume, quando nestes cargos. O tripé das universidades é formado pelo ensino, pesquisa e extensão, e são essas (algumas) das áreas que atuamos.

Ensino – Além de ser responsável por uma ou mais disciplinas ao longo dos semestres (na graduação e na pós-graduação), nós podemos orientar alunos em diversos níveis de ensino; pode ser iniciação científica em graduação, orientação de mestrado ou doutorado, supervisão de pós-doutorado, ou orientação de monitores que nos acompanham e auxiliam durante as disciplinas, na graduação.

Pesquisa – Sobre a pesquisa, em especial nas universidades públicas, é bem comum termos que assumir e desenvolver projetos de pesquisa com a colaboração de alunos e colegas (professores e pesquisadores), e também captar fundos para desenvolver o projeto e aprimorar as condições de trabalho nos laboratórios que usamos. Além disso temos que publicar os resultados das pesquisas na forma de capítulos de livros, resumos ou artigos científicos.

Extensão – Envolve a divulgação do que fazemos para a comunidade de fora da universidade; isso pode se dar na forma de cursos, exposições, livros ou mesmo como este blog.

Outras – Além disso, eventualmente (com a progressão da carreira docente) temos que assumir cargos administrativos como coordenação da graduação, chefe de laboratório, chefe de departamento, ou mesmo cargos que exigem vasta experiência e atuação no ensino superior, como a diretoria do instituto, ou mesmo a reitoria da universidade.

Em meio a tantas tarefas que se sobrepõem, é preciso continuar se atualizando, aprendendo e tentando melhorar. Fazemos isso lendo, discutindo com os colegas da área, publicando, participando de congressos e trabalhos de campo, entre outros meios.

Resumidamente, o nosso dia-a-dia é assim. Portanto, perdoem-nos se às vezes acabamos mudando o dia de publicação ou não publicamos o texto. As tarefas se multiplicam, em especial nos finais de semestres letivos!

 

 

 

O QUE É UM FÓSSIL?

Você sabe o que é um fóssil?

Se nos perguntassem hoje o que significa a palavra fóssil, a resposta seria mais do que óbvia. Uma rápida olhadinha no Google e logo saberemos, por meio de diversos sites, que fósseis são restos ou vestígios de organismos vivos, que foram preservados no interior dos sedimentos e das rochas. Nos cinemas, filmes de aventura como “Jurassic Park” ou animações como “A Era do Gelo” nos colocam em contato direto com essas fantásticas criaturas que viveram tempos atrás. Lojas de brinquedo nos oferecem fósseis para colorir, para montar, para pregar na parede. Existe inclusive uma rede de lojas com este nome, que vende “relógios e estilo de vida”. Assim, os fósseis estão em nossas mentes, em nossas casas e em nossas vidas tão naturalmente que nos fazem pensar que foi sempre assim.

Na verdade, se fosse perguntado aos sábios do passado, eles sequer iriam entender nossa pergunta. Não faria nenhum sentido para eles essa história de fóssil, de organismo extinto, nada disso. Nem mesmo o nome “fóssil” faria sentido. O que hoje chamamos de fóssil era chamado de “rochas com forma de animais”, “madeiras petrificadas”, ou qualquer outra coisa. Mesmo a palavra fóssil teria outro significado, significando coisa escavada, desenterrada. É essa a acepção do latim “fossile”. No século XVI, por exemplo, qualquer coisa desencavada da terra, como rochas e minerais, seriam “fósseis”.

O médico Georg Bauer (1494-1555), também chamado pelo nome latinizado de Georgius Agricola, era um dos maiores especialistas de seu tempo em assuntos do reino mineral.  Agricola viveu na rica província mineira da Saxônia, e escreveu vários livros sobre rochas minerais. Um deles, publicado em 1546, chamava-se justamente “De Nature Fossilium”, que poderíamos traduzir como “Da Natureza das Rochas e Minerais”. As coleções de materiais que ele denomina fósseis contém “pedras, terras, gemas, betume, âmbar”. As “rochas com forma de animais e de plantas”, como se dizia nesta época, eram somente mais um item destes materiais. Eram, se tanto, objeto de mera curiosidade.

Antes ainda, na Idade Média, vamos encontrar usos diversos para os fósseis. Algumas igrejas, como a Igreja de São Pedro em Linkeliholt, na Inglaterra por exemplo, foi decorada com fósseis de equinoides (veja a figura abaixo).  Os fósseis, neste caso, tinham uma função decorativa, devido ao seu formato regular e simétrico. Desde o neolítico até tempos históricos, foram encontrados jazigos humanos de diversas idades, onde os fósseis estão junto com os cadáveres ali enterrados. Isto pode sugerir que foram usados como objetos rituais e mágicos ou talismãs.

Pórtico da igreja de São Pedro em Linkeliholt, Inglaterra, decorada com 25 fósseis de equinodermos; (ver aqui)

Tumba de mulher e criança da idade do Bronze em Dunstable Towns, Inglaterra, circundada por fósseis de equinoides. Desenho de Reginald Smith, 1894. ( Ver aqui)

 

 

 

Falando em usos religiosos dos fósseis, vale a pena comentar alguns exemplos dos amonitas, moluscos que viveram desde o Devoniano até o Cretáceo. Para começar, estes moluscos devem seu nome a seu formato elegantemente espiralado, assemelhando-se a chifres das cabras. Por causa desta semelhança, segundo Plínio o velho, o nome amonitas se deve à sua denominação como “os cornos de Amon”, o deus egípcio que tinha chifre de cabra. Na Índia, alguns fósseis de amonitas, como o Meekoceras varaha, encontrado no Triássico do Himalaia Central, é tido como um dos Chakras de Vishnu. Aliás, varaha, o nome da espécie, é um dos avatars de Vishnu na Mitologia do Hinduismo. Alias, Carolina Zabini também discutiu muito bem em outro post deste blog a origem dos dragões e a paleontologia (ver aqui).

O Chakra de Vishnu e o amonite como objeto religioso na Índia; ( ver aqui )

Como isso tudo mudou? Como chegamos até aqui? A moderna concepção de “fóssil” como restos de organismos é bastante recente, de meados do século XVIII. Esta mudança no conceito de fóssil e a compreensão dos fosseis como organismos e não como curiosidades ou talismãs está no discurso de fundação das ciências naturais modernas. Isso não é pouco.

Figurinhas carimbadas da História da Ciência tiveram um papel decisivo nesse debate, como Steno, Palissy, Cuvier e outros. Mas não só. Anônimos colecionadores e vendedores de fósseis tiveram um papel importante, como a britânica Mary Anning (1799-1847), uma das mais respeitadas colecionadoras de fósseis do século XIX. Um humilde topógrafo inglês, William Smith (1769-1839), reconhecendo a distribuição dos fosseis ao longo dos canais construídos na Inglaterra no século XVIII para o transporte de carvão, criou as bases da estratigrafia moderna.

Essas são algumas peças do debate sobre os fósseis que veremos por aqui. Os fósseis dizem muito também sobre nós, e não só os fósseis de hominídeos. De onde viemos? Para onde vamos? Esses pálidos restos escondidos nas pedras têm muito a nos contar, enquanto esperamos pelo próximo meteoro.

 

Para saber mais:

Chandrasekharam, D. (2007). Geo-mythology of India. Geological Society, London, Special Publications273(1), 29-37.

McNamara, K. J. (2007). Shepherds’ crowns, fairy loaves and thunderstones: the mythology of fossil echinoids in England. Geological Society, London, Special Publications273(1), 279-294.

Georg Agricola. (1955). De Natura Fossilium (Textbook of Mineralogy): Translated from the First Latin Ed. of 1546 by Mark Chance Bandy and Jean A. Bandy for the Mineralogical Society of America (No. 63). Geological Society of America, pc1955.

As árvores mitológicas, filogenéticas, tentadoras: quando surgiram?

Ainda valem como obras que dão sentido a uma vida plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho? A figura de uma árvore é realmente muito poderosa. Eu, particularmente, sempre gostei das árvores gorduchas do Rembrandt que me proporcionam uma incrível sensação de aconchego. Mas quando apareceram as árvores dominando a paisagem do nosso planeta? Qual a sua influência, a partir de então, nos ecossistemas terrestres? Pelo menos até agora não temos evidências, ainda, de árvores extraterrestres.

A ponte de pedra. Óleo sobre tela 29,5 x 42,3  cm. Rembrandt
Rijksmuseum, Amsterdam. (http://www.rembrandtpainting.net/complete_catalogue/landscape/bridge.htm)

Bom, os mais antigos vegetais fósseis que conseguiram sobreviver no continente foram, ao que parece pelas evidencias, musgos e a partir desse momento surgiram outros vegetais mais adaptados a viverem no meio seco e nos quais a parte vegetativa tinha uma vida mais longa (esporófito) além de ser de maior em tamanho, enquanto que a parte reprodutora passou a ser menor e com uma vida mais curta (gametófito). Todas essas adaptações aconteceram no transcurso da Era Paleozoica. Mas o que caracteriza uma árvore? Seu tamanho? Ou possuir um lenho com crescimento secundário, ou seja, no qual se formam anéis de crescimento com o passar do tempo? Se for pelo tamanho, as primeiras árvores apresentavam um formato que lembra as palmeiras de hoje, sendo incluídas dentro dos gêneros Gilboaphyton e Eospermatopteris, cujos fósseis são encontrados perto de Nova Iorque, nos Estados Unidos e no norte da Venezuela, na cordilheira de Perijá. O surgimento da possibilidade de ramificação abriu novas possibilidades, assim como o desenvolvimento de sistemas radicular e vascular mais eficientes. Tudo isso aconteceu, pelo registro que se tem, durante o transcurso da segunda metade do período Devoniano, entre 398 e 385 milhões de anos atrás. O desenvolvimento desse novo tipo de vegetais, as árvores, trouxe profundas mudanças aos ecossistemas continentais, tanto pelo surgimento das florestas e com elas novas possibilidades a vida, quanto para o ciclo do carbono, intemperismo das rochas, estabilização da erosão, balanço do CO2 e consequentemente do clima. As primeiras florestas possivelmente viviam próximo aos cursos de água, de forma semelhante às florestas ciliares que hoje em dia acompanham o curso dos rios.

Contudo, e apesar dessa restrição na sua distribuição, uma das mais importantes mudanças dentre as acima comentadas foi introduzida pelos sistemas radiculares (raízes) que se tornaram mais efetivos, complexos e profundos. Esses avanços trouxeram como consequência o desenvolvimento de solos com conteúdo orgânico, bem como a intensificação do intemperismo químico do entorno abiótico que rodeava as raízes. Por sua vez, as raízes desde o inicio já apresentavam uma associação com uma classe especial de fungos denominada como micorrizas, hoje presentes em 90% dos vegetais, e que auxiliam na obtenção de nutrientes do solo e, portanto, na alteração química das rochas. Outra ventagem do advento de sistemas radiculares maiores foi a diminuição da erosão e como consequência, da quantidade de sedimentos que era incorporada aos sistemas fluviais e costeiros.

Sistemas radiculares maiores e mais complexos, juntamente com o surgimento de um sistema vascular formado por tubos ou traqueídes com paredes agora lignificadas e provistas de perfurações para auxiliar na melhorar a circulação de água e nutrientes por todo o corpo do vegetal, permitiram também a sustentação de uma porção aérea maior em altura e com maior área de copa. Essas melhorias permitiram que os vegetais alcançassem vários metros de altura e aumentassem consideravelmente o seu tempo de vida, abrindo um novo capítulo nos ecossistemas terrestres e oferecendo proteção dos raios solares e mais umidade.

Registros de paleosolos devonianos que se desenvolveram em ambientes costeiros e fluviais são uma das evidências acerca do desenvolvimento e sofisticação dos sistemas radiculares, pois neles foram preservados moldes das raízes ou raízes permineralizadas junto com as micorrizas.

Mas calma: essas primeiras árvores ainda não possuam uma reprodução por meio de sementes e, portanto, grandes áreas no interior dos continentes ainda continuavam a desabitadas. As primeiras sementes surgiram no período seguinte, conhecido como Carbonífero, e com elas a possibilidade das florestas cobrirem as terras emersas até hoje.

Paisagem com árvores, construções da fazenda e uma torre. Rembrandt Harmensz. van Rijn (1606–1669) Gravura, 123 x 319 mm Städel Museum, Frankfurt am Main Photo: Städel Museum, Frankfurt am Main (http://www.themorgan.org/rembrandt/print/179857)

Os achados do Marrocos e as novas raízes da espécie humana (e por que é comum que a ciência se reconstrua)

Na Paleontologia e na Biologia Evolutiva, a evolução humana é um dos assuntos mais populares e, ao mesmo tempo, mais polêmicos. Não poderia ser diferente, afinal trata-se do nosso ramo na árvore da vida. Se por um lado, a evolução humana atrai a curiosidade dos sedentos por ciência, por outro, atrai reações menos amistosas dos negadores da ciência. Para aqueles que negam o fato de nossa ancestralidade em comum com todos os outros organismos do planeta, é uma afronta se deparar com a história mais próxima desta relação de parentesco. É uma afronta se deparar com o fato de que há uma íntima relação de parentesco dos humanos com os símios sem rabo, como o chimpanzé, o bonobo, o gorila, o orangotango ou o gibão.

Relações evolutivas dos Hominidae viventes. Da esquerda para a direita: Pongo pygmaeus (orangotangos), Gorilla gorilla (gorilas), Homo sapiens (humanos), Pan troglodytes (chimpanzés) e Pan paniscus (bonobos). Fonte: Nature, 2012.

Por conta disso, são comuns perguntas como: “se os humanos vieram dos macacos, por que não vejo um macaco dar a luz a seres humanos?”. Por mais absurdo que pareça este questionamento, ele é comum em um país como o Brasil, onde existem muitos analfabetos científicos. Muitos brasileiros estão acostumados a explicar seus eventos rotineiros com base em misticismo (vide a quantidade de pessoas que acredita em horóscopos e afins). Por conta disso, a ciência precisa urgentemente ser popularizada, se tornar acessível. No que concerne o assunto principal deste texto, é importante esclarecer sobre uma pergunta tão difundida, pois ela apresenta em sua formulação um desconhecimento da Biologia Evolutiva. É provável que as pessoas que façam esta pergunta se refiram a macacos atuais, e que muitas delas pensem que Darwin defendia que os chimpanzés eram os ancestrais dos humanos. No entanto, o surgimento de uma espécie não é instantâneo, ele comumente leva de décadas a milhares de anos (é certo que quando o ciclo de vida de um organismo é curto, como com bactérias ou mesmo moscas das frutas, o tempo de especiação é bem menor). E nós humanos não descendemos dos chimpanzés, ou dos gorilas ou de nenhum outro macaco atual. Nós possuímos ancestrais em comum com os macacos atuais, e se formos voltando no tempo, encontraremos ancestrais em comum com outros mamíferos, ancestrais em comum com os répteis e aves, ancestrais em comum com qualquer tetrápode, ancestrais em comum com qualquer vertebrado, com qualquer animal, com qualquer eucarioto, com qualquer organismo. Dentre estes ancestrais, o nosso ancestral mais recente é também ancestral dos chimpanzés e dos bonobos.

Comparado aos dias de hoje, na época em que Darwin publicou “A Origem das Espécies”, haviam poucos dados que suportassem a ideia de que os humanos fossem relacionados aos símios sem rabo (embora já existissem muitos dados de diversas outras relações de parentesco da árvore da vida). Hoje, o registro fóssil é extremamente rico e evidencia este fato com robustez. Não obstante, a cada nova descoberta que muda o rumo da história, surgem os negadores da ciência argumentando que a Biologia Evolutiva é falha ao explicar seus fatos, porque põe por terra o que antes havia construído. Recentemente, novos fósseis de humanos foram descobertos no Marrocos, fósseis que trazem duas principais contribuições para mudar o rumo da história. A primeira delas é sua idade, datada em 300 mil anos, muito mais antiga do que os 195 mil anos, dos mais antigos fósseis de humanos até então descobertos na Etiópia. A segunda novidade é sua localização, fora do leste africano, o palco principal da evolução humana, e onde se acreditava ter surgido nossa espécie. Nas postagens das notícias veiculadas nas redes sociais, por conta dos dois artigos publicados no periódico Nature (vide os links ao final), fica evidente que não são poucos os negadores da ciência em nossa país (fiz o não recomendado para qualquer notícia, li muitos comentários). Por que é falho o argumento de que estes achados mostram uma fragilidade do fato da evolução humana, simplesmente por mudarem o rumo da história?

Fósseis recém descobertos no Marrocos dos primeiros humanos (esquerda) comparados a humanos atuais (direita). O crânio daqueles é levemente alongado se comparado ao nosso. Fonte: Nature, 2017.

É falho porque os novos fósseis apenas apontam uma origem mais antiga e uma maior dispersão dos primeiros humanos, não são uma prova contrária a nossa ancestralidade em comum com os símios sem rabo. A Paleontologia até então apresentava evidências de que nossa espécie tinha surgido mais recentemente do que mostram estes fósseis, mas é corriqueiro que a medida em que novos fósseis sejam descobertos, que algumas datas de eventos importantes sejam modificadas. O registro fóssil não é completo, é uma pequena página de tudo o que ocorreu. A maioria da história se perdeu, mas aquela que ficou registrada traz robustez à Biologia Evolutiva. A evolução é um fato suportado por um registro fóssil que é falho, mas que mesmo assim, indubitavelmente, é uma forte evidência.

O sítio onde foram descobertos os fósseis do Marrocos. Acredita-se que foi uma antiga caverna ocupada pelos primeiros humanos. Fonte: Nature, 2017.

Os livros não deixarão de apresentar o fato da evolução humana, mas modificarão o que contam sobre nossa espécie. Ela parece ter não apenas o leste africano como berço, mas uma região mais ampla da África. De certa maneira, isto não deve ser encarado de forma tão surpreendente, pois nós somos uma espécie que colonizou o globo todo. Esta propensão já estava presente em nossas raízes, nos primeiros momentos da existência do Homo sapiens. Estes primeiros momentos parecem ter sido anteriores ao que acreditávamos. Também não há nada tão surpreendente nisso, uma página desconhecida do livro da vida foi lida. E ela continua nos contando que surgimos de um ancestral comum aos símios sem rabo e que fomos nos tornando diferentes, bípedes, com significativo aumento do cérebro e glabros, e agora que nossa humanidade possui raízes que alcançam além do leste africano que são mais profundas, chegando até cerca de 300 mil anos atrás. Não é difícil atualizar o conhecimento que está nos livros, é difícil leva-lo para além dos livros, difundi-lo em um país onde cada vez mais a ciência parece ameaçada. No entanto, não há melhor arma do que continuar a propagar, continuar a popularizar. A ciência deve ser para todos, de forma que todos compreendam, sem qualquer surpresa, que a ciência se reconstrói a todo o momento.

Para saber mais, leia os artigos publicados na Nature:

On the origin of our species.

Oldest Homo sapiens fossil claim rewrites our species’ history.

Coincidências (milagres??) paleontológicos: as preservações excepcionais

Qual a probabilidade de você conversar com alguém sobre algo que você não sabe muito bem e, no dia seguinte, abrir um livro e encontrar exatamente aquele assunto? Ou então, de você ir a um sebo e encontrar à venda um livro que um parente distante seu havia adquirido há anos atrás? Talvez estes pequenos exemplos não sejam reconhecidos como milagres. Na verdade, eu prefiro pensar em coincidência mesmo. Mas de uma probabilidade infinitesimalmente pequena.

Eu já falei em posts anteriores que o processo de preservação e também o da descoberta de um fóssil é um evento raro. Mas tem alguns casos que são surpreendentes, e é sobre um deles que vou escrever hoje; envolve a descoberta de um nodossauro de 110 M.a. na região de Alberta, Canadá.

Localização da cidade onde uma descoberta incrível ocorreu.

A história, que foi divulgada em vários sites, conta que um operador de máquinas de uma mina em Fort McMurray, trabalhava na retirada das rochas arenosas impregnadas com óleo (trabalho este que exercia há 12 anos pelo menos), quando se deparou com algo distinto, muito mais duro que as rochas do entorno. Em seu cotidiano de trabalho era comum encontrar troncos petrificados, mas nunca havia se deparado com um… resto de dinossauro. Resto de dinossauro! E a história não termina por aí. Não era apenas um conjunto de ossos de dinossauro, como a maioria dos registros de vertebrados que ouvimos falar…

O animal completo (isto é, todas as suas partes) deveria estar contido naquela rocha, e isso, por si só já é raro no registro. Mas o mais incrível desta história é que não são somente os ossos que ficaram preservados. As impressões da pele, escamas, osteodermas, ossos, e, possivelmente, até sua última refeição, estão ali! E ainda: sua forma original está mantida, ele não está intensamente deformado e achatado.

Apesar de ter sido encontrado em 2011, até hoje os estudos com o espécime continuam. Durante a retirada do fóssil do local em que foi encontrado, somente se conseguiu resgatar a sua porção mais frontal, do focinho até o quadril, e um outro bloco, com a cauda. Foram necessárias cerca de 7.000 horas de trabalho em laboratório para preparar o crânio e a cauda para estudo. Esta preparação consiste basicamente na retirada de rocha do entorno do fóssil. O torso do animal ainda está em preparação. O bloco que o contém pesa cerca de 15 toneladas. Hoje ele está depositado na coleção do Museu Real de Ontário (ROM). Seu nome científico é Zuul crurivastator.

Este é o fóssil mais bem preservado de nodossauro  já descoberto. Este é Zuul crurivastator. Foto da National Geographic

Todo o contexto geológico em que ele foi encontrado é também muito interessante. O animal que, em vida, era terrestre e herbívoro, foi encontrado em sedimentos que registram o fundo de um antigo mar. Acredita-se que seu corpo tenha sido carregado, inflado, boiando e em decomposição parcial, por um rio, e quando a carcaça liberou seus gases internos (produtos da decomposição), ela já estava em mar aberto, onde mergulhou para as profundezas, foi soterrada, e ali permaneceu para ser encontrada em 2011.

Zuul, um monstro do filme Caça-fantasmas

De acordo com o Museu Real de Ontário os nodosauros são dinos pertencentes à infraordem Ankylosauria e eram vertebrados terrestres com 4 patas, corpos achatados, longos e recobertos por uma armadura óssea. Sua cauda apresentava espinhos, e, por vezes, uma clava em sua extremidade. Quando em vida devia chegar aos 6 metros de comprimento e pesar cerca de 2,5 toneladas. Foi o fato de apresentar narinas largas e 4 chifres no crânio (atrás e embaixo dos olhos), que levou à classificação em um novo gênero, o Zuul. Este nome, aliás, remete a um monstro do filme dos Caça-fantasmas! Há! Não posso deixar de fazer referência a um post anterior do blog (este aqui). Já falamos que é possível que restos de fósseis de grandes tamanhos tenham dado origem às lendas dos dragões, não é mesmo? Vejam, no caso de Zuul, o monstro do filme, isto é, a criação humana para uma história de ficção científica, é anterior à própria descoberta do fóssil. Como pessoas influenciadas pelo seu contexto histórico e social, os cientistas envolvidos na taxonomia do fóssil de Alberta homenagearam a ficção! Não é legal?

Vocês acham eles parecidos? à esquerda a reconstrução artística do fóssil Zuul, à direita, Zuul, do filme Caça-fantasmas. Fonte: The guardian.

 

Veja a publicação científica desta descoberta aqui.

Você pode ver as imagens e a matéria que inspirou este post abaixo:

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

https://www.scientificamerican.com/article/new-dinosaur-resembles-ghostbusters-monster-zuul/

 

Fonte das imagens:

https://www.theguardian.com/science/2017/may/10/meet-zuul-destroyer-of-shins-the-75m-year-old-ghostbuster-dinosaur

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

Grandes Extinções: um dia da caça, outro do caçador

 

Algumas das mas famosas vitimas das extinções, trilobitas, ammoide, nautiloide reto e bivalve.

Extinção é para sempre, como casar pela igreja … mas no último caso, os interessados combinam a hora, dia, mês e ano. Mas no caso das extinções, o processo precisa da conjunção de vários fatores e os principais envolvidos … bom… não estão assim muito felizes!

O que define uma extinção em massa? Pelo geral, o desaparecimento de pelo menos 50% das espécies continentais e marinhas conhecidas, deve se tratar de um evento cosmopolita e pode acontecer somente num pulso ou em vários estágios. Nós estamos aqui graças à última das extinções em massa, que aconteceu há 66 Ma e os nichos diurnos ficaram disponíveis aos mamíferos até então mais restritos à noite.

Nos últimos 540 Ma da história da vida no nosso planeta acredita-se, por enquanto, que aconteceram pelo menos cinco extinções em massa e 15 intervalos de extinções menores. Então extinções não são fatos isolados na história da vida! As cinco maiores aconteceram, da mais antiga à mais recente, na seguinte ordem:

– próxima do limite entre os períodos Ordoviciano-Siluriano (443 Ma). Nesse evento, segundo evidências do registro fóssil, desapareceram 85% da fauna marinha (ainda não existia vida nos continentes) especialmente invertebrados (trilobitas, graptozoários, braquiópodes, moluscos, etc.);

– final do período Devoniano (359 Ma). Aqui, 75% da vida desaparece, incluindo formas de vida marinhas e continentais;

– limite entre as eras Paleozoica e Mesozoica ou extinção do Permiano-Triássico (240 Ma). Também conhecida como mãe de todas as extinções, pois com ela 95% de todas das formas de vida desaparecem (entre eles muitos invertebrados como corais, crinoides, além de vegetais etc.). Contudo, o evento foi menos severo para os tetrápodes e como consequência os amniotas virão se tornar dominantes;

– próxima do limite Triássico- Jurássico. Acredita-se que foram vários pulsos de extinções que transcorrem durante 18 Ma;

– e por fim, o último grande evento de extinção aconteceu no limite entre as eras Mesozoica e Cenozoica, mais conhecido como extinção do Cretáceo-Paleógeno. Neste evento 70% da vida se extinguiu.

O que produz um evento de extinções em massa? Existem várias causas, entre elas vulcanismo, impacto de asteroides, mudanças climáticas drásticas, deriva continental, anoxia (falta de oxigênio) generalizada nos mares, ou todas elas juntas. Como atuam essas causas? Podemos tomar como exemplo a extinção do Cretáceo-Paleógeno, que teve como causa culminante a queda de um asteroide. Pelas evidências, quando o asteroide atingiu o planeta foi liberada uma energia equivalente a 10 bilhões de bombas como a de Hiroshima. O local da queda é hoje conhecido como a cratera de Chicxulub e fica no golfo de Yucatan, México. A cratera tem aproximadamente 200 km de diâmetro e uma profundidade de 30 km, pelo que se calcula que o asteroide teria ao redor de 15 km de diâmetro. Hoje em dia, a cratera na sua maior parte se encontra emersa e recoberta por mais de 600 m de sedimentos. A porção que se encontra em terra está recoberta por rocha calcária, mas seu contorno ainda pode ser devidamente traçado.

No final do Cretáceo o local da queda era ocupado por um mar pouco profundo e quente, rico em recifes de corais, no qual ocorria a deposição de evaporitos como o gesso – gipsita, Ca(SO4) – rico em sulfeto. Como consequência da queda, as águas desse mar foram vaporizadas e em consequência, toneladas de enxofre foram para a atmosfera, propiciando chuva ácida ao redor do planeta. Como se fosse pouco, com a liberação de semelhantes quantidades de energia também surgiram grandes ondas (tsunamis), cujos registros são atualmente encontrados em locais distantes como a costa da Venezuela. Além do impacto desse asteroide, o final do Cretáceo também foi marcado por intensas erupções vulcânicas na Índia as quais se calcula que tenham liberado de 100 a 1.000 bilhões de toneladas de cinzas, que perduraram de 100 a 1.000 anos na atmosfera superior. Também a separação entre a África e a América do Sul trouxe a abertura do oceano Atlântico Sul teve como consequência a queda no nível dos mares e, por consequência, uma mudança nas correntes oceânicas com a queda das temperaturas. Assim, a soma desses fatores “favoreceu” a extinção em massa.

No evento do Pint of Science

Minha palestra no evento Pint of Science – Campinas no dia 16/05/2017 foi relativa a esse tema. Obrigada por me convidar foi ótimo.

Cobras, sombra e água fresca. Enfim, campo!

Uma das maiores vantagens ou alegrias da carreira de paleontólogo é, em minha opinião, poder realizar trabalhos de campo. Como bióloga, eu poderia ter escolhido uma área de trabalho que se restringisse ao laboratório, ou somente à sala de aula. Mas escolhi atuar em algo que tem tudo isso e um plus: o campo. Mas, o que vem a ser uma saída a campo, TC (trabalho de campo), CC (campanha de campo), ou simplesmente “campo”?

É sim possível que na sua mente, neste momento, a imagem de Indiana Jones se forme e que você, mesmo que por um instante, acredite que todos os campos em paleontologia sejam sempre realizados em locais remotos, com cobras e muitas armadilhas. Bem, as cobras sempre estão lá. Junto com escorpiões, vespas e aranhas, elas adoram os paredões em que a gente trabalha. Mas não é necessário ir a locais remotos para encontrar fósseis. Eu mesma realizei as coletas da minha pós-graduação num afloramento de rocha à beira de uma estrada, muito próxima a uma cidade. Era só parar no acostamento e trabalhar.

Como já passamos da época de estabelecimento das diversas áreas científicas, processo que ocorreu por volta da transição entre os séc. XVIII e XIX, em que pouco se sabia e as áreas científicas (inclusive a geologia e paleontologia) estavam sendo delimitadas, atualmente os trabalhos de campo não são mais (em geral) tão desbravadores assim. Já temos todo um mapeamento geológico do território brasileiro, e com isso temos uma boa ideia da distribuição das rochas e de suas idades. Assim, antes de irmos a campo, olhamos o mapa e vemos onde estão as rochas que queremos procurar e que devem conter os fósseis da idade que estudamos.

Afloramento aberto pela construção de uma estrada, MT

O segundo passo nesta história é encontrar locais onde estas rochas afloram, ou seja, lugares em que elas estão disponíveis em superfície. Caso elas estiverem somente em subsuperfície, não teremos como acessá-las tão facilmente. Uma forma de acessar estas rochas ainda “escondidas” é com a obtenção de testemunhos de sondagens, muito úteis para os paleontólogos que trabalham com microfósseis. Como os testemunhos tem um volume de rocha pequeno, a maior quantidade de fósseis que eles podem carregar tem que ser de tamanhos muito pequenos, certo? No entanto, como eu trabalho com organismos macroscópicos (de tamanhos que variam de mm a cm), eu trabalho com rochas que aflorem na superfície terrestre.

E como fazemos para encontrar tais afloramentos rochosos? Com o mapa em mãos, sabendo onde as rochas escolhidas podem ocorrer, procuramos por locais onde naturalmente elas podem estar expostas, como paredões de cachoeiras, margens de rios, cânions, encostas. Existem outros processos que podem expor estas rochas, e são antrópicos: margens de estradas e ferrovias, minas, ou grandes obras que necessitem escavações, como as lavras, por exemplo.

Afloramento de rochas do Ordoviciano, em Goiás

Encontradas as rochas, o nosso trabalho árduo começa. Todo o afloramento é medido e descrito detalhadamente, estrato a estrato. Devemos delimitar o espaço e tempo de trabalho, para fins comparativos. E, enfim, podemos começar a quebrar as rochas com nossos martelos, a fim de procurar os fósseis. Cada fóssil encontrado tem sua posição registrada e recebe um número ainda em campo. Depois da coleta, o material é levado ao laboratório e uma nova etapa de análise se inicia.

Lembro-me da primeira vez que encontrei um fóssil, ainda na graduação. A sensação de encontrar um resto de um organismo que morreu há cerca de 400 milhões de anos, quase que completamente ao acaso (no sentido de que se eu não tivesse escolhido aquele ponto, mas outro, eu não teria tido sucesso; ou ainda: que se tivesse batido com o martelo de outro jeito, poderia ter estragado ou sequer percebido que aquele fóssil estava ali) foi perturbadora. Pense bem: não há como escolher o melhor lugar para se encontrar algo escondido entre as rochas. É um lance de sorte. Uma daquelas coisas que nos faz sentir pequenos frente à vastidão da história geológica e biológica da Terra, mas que também nos faz sentir como parte de algo imenso e maravilhoso. Poder conhecer um pouco do que foi a vida num passado tão distante é sim uma grande aventura, e um privilégio.

Biomineralização: e eu com isso???

Quando pensamos em minerais, cristais, etc. raramente relacionamos esse tipo de processo com a vida e com o nosso próprio corpo. Mas basta um rápido sorriso no espelho para ver nos nossos dentes as evidências do processo de biomineralização que realizamos. Aliás sem biomineralização não conseguiríamos viver no planeta que habitamos, e precisamente essa capacidade dos organismos de biomineralizar pode ser exclusiva do nosso planeta, fazendo com que ele seja diferente de todos os outros conhecidos no sistema solar e fora dele.

Mas a final, o que é a biomineralização? Pode ser definida como um processo mediante o qual os organismos formam minerais a partir da retirada seletiva de elementos do meio que os rodeia e incorporação na sua estrutura funcional. Esse processo, por exemplo, incorpora cristais de hidroxiapatita [(Ca10(PO4)6(OH)2)] para construir e reparar nossos ossos e dentes. A hidroxiapatita é um mineral do grupo dos fosfatos, pois utiliza o fosforo como cátion para formar os cristais que vão sendo alocados entre as fibras de colágeno e dando forma e resistência aos nossos ossos. Os cristais de hidroxiapatita possuem forma de placas e são muito pequenos. Quando esse processo para ou é realizado de forma incompleta terá como consequência a osteoporose.

Os organismos utilizam vários íons no processo de biomineralização, entre os quais o mais comum é o cálcio (Ca), podendo ser encontrado em aproximadamente 50% dos biominerais. Outros íons bastante comuns são o Silício (Si), o Fosforo (P), o Ferro (Fe) e o Enxofre (S) embora a lista seja bem mais extensa.

O processo de biomineralização não é exclusividade dos eucariontes, pois entre os registros mais antigos de biominerais se encontram os associados a bactérias que biomineralizavam Fe, por exemplo, em magnetita formando cristais denominados de magnetosomos há 3.000 milhões de anos. Essas bactérias que geram magnetita recebem o nome de magnetotáticas. Os vegetais também biomineralizam utilizando como íon principal o Si, pelo menos nos últimos 400 milhões de anos, ou seja, desde que temos registros de plantas sobre os continentes. Quem já não se cortou com a folha de capim? Essas folhas possuem diminutos corpos de sílica hidratada, ou opala, denominados como fitólitos que cumprem funções de defesa e sustentação da planta. Por sinal, cada planta biomineraliza fitólitos com formas diferentes que podem ser estudados e utilizados em estudos de reconstrução de antigas florestas.

Alguns exemplos fitolitos e de folhas capim (Poaceae) rico em fitolitos.

Há uma enorme diversidade de organismos que biomineralizam cristais utilizando o Ca na forma de calcita ou aragonita nos mares e oceanos. Um grupo que utiliza cálcio e que produz belíssimas carapaças formadas por cristais de calcita são os cocolitoforídeos. Sob essa denominação sofisticada de cocolitoforídeos são reunidos os organismos autotróficos marinhos mais abundantes do fitoplâncton, ou seja, que vivem flutuando nas camadas mas superficiais dos mares até uns 20m de profundidade. Os cocolitoforídeos são tão abundantes que, junto aos foraminíferos, são responsáveis por criar e manter o gradiente vertical da alcalinidade na água do mar, e tudo por devido à biomineralização.

Cocolitoforídeo com suas pelas placas que representam um cristal de calcita. As placas ao morrer o organismo caem isoladas no fundo dos mares e formam espessos depósitos de carbonatos, os chalk. Depósitos formados dessa forma são os white cliff da costa da Inglaterra. (sopasdepedra,ebah.com.br, wonderfulseaworld)

Os biominerais são caracterizados por apresentar uma fórmula química definida, embora a sua morfologia externa possa ser incomum se comparada com os minerais produzidos inorganicamente, mas nessa característica reside parte da sua complexidade e diversidade. Muitos são, na realidade, compostos ou aglomerações de cristais separados por matéria orgânica como no caso dos nossos ossos. Os biominerais podem existir como pequenos corpos dentro de uma rede de colágeno ou quitina (como no caso da carapaça dos caranguejos).

Como acontece a biomineralização? Para que ocorra a nucleação (formação dos primeiros núcleos cristalinos) e o posterior crescimento, a biomineralização precisa de uma zona de deposição saturada, geralmente isolada do ambiente em volta e delimitada por uma geometria física, como vesículas intracelulares, onde o meio ao redor é precisamente controlado. Há dois processos básicos responsáveis: um biologicamente induzido e outro biologicamente controlado. No primeiro caso, os organismos não têm controle do tipo e da forma dos minerais depositados, embora controlem o pH, pCO2 e a composição das secreções, como acontece nos microbialitos comentados no post “Microbialitos – fósseis mais persistentes” da Flavia.

No processo biologicamente controlado, os organismos utilizam as atividades celulares para controlar diretamente a nucleação, o crescimento, a morfologia e a localização final do mineral que está sendo depositado. Assim, a maior parte do processo ocorre num ambiente isolado. O resultado é muito sofisticado e com uma função biológica especializada dada pelo organismo, como no caso dos nossos ossos e dentes. Pense nisso na próxima vez que escovar os dentes.