TREVAS OU CIÊNCIA: SUPERAREMOS O VERDADEIRO 1 X 7 ?

TREVAS OU CIÊNCIA: SUPERAREMOS O VERDADEIRO 1 X 7 ?

A Copa do Mundo se aproxima. Galvão Bueno está afoito. A seu lado, também se anima o autor da célebre frase: “Não se faz Copa do Mundo com hospitais”. Até porque, a Copa é uma ótima ocasião para reencontrar os amigos da FIFA que não estão presos. Até agosto de 2018, a mídia já possui seu tema: futebol, Venezuela e desacordos político-jurídicos. Em outubro, de repente, eleições. Em outro momento, falaremos da saúde e a beleza do futebol-raiz reinventado por Neymar e seus parças, apesar da CBF e nas antípodas da situação do país. Neste artigo, abordaremos algo mais importante: ciência e educação. O que nos motiva a escrever são, sobretudo, os cortes de 44% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em 2017; seguidos do fato das duas revistas científicas mais importantes do planeta, a Nature e a Science, terem publicado mensagens de alerta contra os riscos desses cortes; e por fim, o recebimento no gabinete superior, no dia 29 de setembro de 2017, de um documento assinado por 23 vencedores do prêmio Nobel, pedindo o fim dessa política.

O que é ciência? É ela um item supérfluo? Baseados em Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), defenderemos que a ciência, a tecnologia e a filosofia são alguns dos maiores dons humanos, pelos quais o homem tanto se distingue dos demais animais. Sendo assim, o retrocesso científico só pode significar um retorno à animalidade, ou a estágios anteriores do desenvolvimento da civilização, como por exemplo, a Idade Média. No caso do Brasil, o contraste de sermos os aclamados pentacampeões mundiais no futebol masculino, e nunca termos vencido um único Nobel, é ainda mais alarmante. Talvez essa contradição ostente uma profunda neurose nossa: uma mentalidade medieval, que só pode ser elaborada com educação e conhecimento. Em outras palavras, perdemos de 1 x 7 no campo muito mais importante da cultura. Damos o valor de 1 a nossos produtos naturais e humanos, e o valor de 7 ou mais ao lixo internacional: somos derrotados de goleada. Esse humilhante placar só pode ser revertido com educação.

Contudo, o Brasil voltou a investir abaixo da média mundial nesse item, que, segundo Platão e Aristóteles, é o principal fim da política. Como é possível que o país dono da seleção de maior sucesso no esporte mais popular do mundo, o futebol masculino, seja, ao mesmo tempo, a maior vergonha no prêmio científico igualmente popular, o Nobel? Quem separou o corpo da mente dessa maneira? Por favor, não culpem Platão ou Descartes por isso. O Nobel foi criado por Alfred Nobel, o inventor sueco da dinamite, e pode ser comparado a uma espécie de Copa do Mundo anual das ciências, da paz e da literatura. Evidentemente, não se trata do índice mais importante de qualidade científica e humanística, mas ainda assim é um indicador respeitável. Que seja mais importante vencer um Nobel do que uma Copa do Mundo é um truísmo que dispensa aprofundamento.

Por outro lado, é uma façanha bem mais complexa ganhar um Nobel, pois diferentemente do que ocorre no futebol, para que surja, na ciência, paz e literatura um Pelé, Garrincha, Romário ou Neymar, é necessária uma preparação e estruturação pública de qualidade e décadas de investimento.

Infelizmente, nesse assunto, os liberais pouco podem com o argumento de que o mercado basta para desenvolver a ciência. Ora, o Brasil é a maior contraprova dessa posição: temos a sexta economia mundial; se o mercado fosse suficiente para ganhar o Nobel, estaríamos mais ou menos na sexta colocação nesse ranking. No entanto, 74 países estão à nossa frente, isto é, têm o prêmio, enquanto nós, não. Quais são as causas de tamanho vexame? Talvez excesso de liberalismo e medievalismo em nosso território. Por incrível que pareça, falta aqui, justamente, mais modernismo, capitalismo esclarecido e socialismo harmonizados entre si.

O mercado não se interessa pelo prazer do conhecimento. Ele se interessa pelo lucro, de preferência, a curto prazo. A ciência, por outro lado, se baseia, desde a Antiguidade, na fruição da contemplação desinteressada ou no mero entendimento da realidade. Só em um segundo momento ela se ramifica em técnicas diversas, que se voltam à exploração dos recursos naturais e humanos, geradores de capital. Tentar saltar a primeira etapa – a do prazer do conhecimento – e chegar rapidamente na segunda, a do lucro, é como querer colher o fruto antes de plantar a semente.

A ordem natural do desenvolvimento do pensamento é: poesia, filosofia, ciência, e, por último, tecnologia. Enquanto não respeitarmos esse desabroche natural do conhecimento, não alcançaremos o almejado capital. Como o mercado, geralmente, não tem paciência para investir em arte, filosofia e ciência, o principal papel do Estado deve ser o de suplantá-lo nesse item tão importante, e cuidar desses bens até a sua colheita. Ciência, arte e filosofia não são despesas, mas investimento: o capital privado deve atuar como coadjuvante e aliado.

Aqui podemos ver a lista dos “medalhistas” de Nobel por país. Os Estados Unidos vêm em primeiro lugar, com 369 prêmio até 2017. Segue o Reino Unido, com 129 e em terceiro lugar a Alemanha, com 107. Mesmo se comparamos o Brasil com países semelhantes a derrota é de goleada: a África do Sul tem 10 premiações; a Índia, 9; a Argentina, 5; o Egito, 4; a Turquia e o México, 3. O Chile, a Colômbia e a Guatemala têm 2; a Venezuela, 1. O Brasil: 0.

O Brasil quase ganhou em 1950, com o físico César Lattes, da UNICAMP. O ano de 1950 foi mesmo o “ano do quase”. No campo da literatura e da paz, muitos nomes também já foram citados. A resposta, porém, da academia foi germânica: somos uma vergonha, e que isso pese às exceções. Temos, de fato, universidades, instituições e personalidades de renome internacional. O Brasil vinha mesmo despontando em diversas áreas científicas recentemente. Contudo, como esse desenvolvimento está ameaçado pelos cortes bruscos de investimento público, a comunidade científica nacional e internacional colocou um sinal de alerta na importância de se preservar esse delicado bastião da cultura: o conhecimento.

Em épocas de crise, os países desenvolvidos costumam cortar entre 5 e 10% de seus investimentos em pesquisa científica. O governo nacional atual, porém, podou 44% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), para 2017, e ameaça extrair mais 15% para 2018. Diante desse sacrifício, as revistas Nature e Science apontaram as consequências dessa política, e 23 vencedores internacionais do prêmio Nobel escreveram ao presidente, então, pedindo o fim do abate científico.

Na esteira da política nacional, muitos governos estaduais também aderiram à prática de supereconomia com ciência e educação. Para dar um exemplo, o Governo do Estado de São Paulo teve seus gastos com a educação questionados pelo Tribunal de Contas do Estado. Resumindo o artigo da FOLHA do link anterior: a Constituição Paulista exige que 30% de sua receita seja investida em educação. No entanto, o governador Geraldo Alckmin investiu apenas 25%, e incluiu outros 6% em sua planilha que, na prática, não eram gastos com educação, mas com aposentados.

Conforme Platão e Aristóteles, a educação é o principal fim da política. Isto está em República e O Político: em outro artigo desmiuçaremos essa lição. Se outros questionamentos de Tribunais de Contas, portanto, com temas subordinados, levam – com justeza – a “impeachments” presidenciais em nosso país, o que dizer de problemas com o fim principal da política, conforme Platão e Aristóteles?

Voltando ao contexto nacional: uma das líderes da resistência contra a “política de sacrifício científico” é a biomédica Helena Nader, que presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso e Ciência (SBPC), por seis anos. Conforme a cientista, é um grave erro acreditar que gastos com ciência sejam despesas: elas são, como dizemos acima, investimentos que visam construir uma sociedade competitiva a nível internacional. Somente com o desenvolvimento científico e filosófico, deixaremos de exportar produtos de todas as áreas pelo preço de um, e importar (às vezes o mesmo produto, melhor elaborado) pelo preço de sete. Segundo Nader, é lamentável que o Brasil, que vinha exercendo uma liderança inédita nesta matéria arrisque perder essa posição e ver “todos os institutos de ciência e tecnologia ligados ao ministério fechando as portas”. Conforme Nader, caminhamos rumo às trevas. Ainda dá tempo de reverter essa direção. Se demorarmos muito, porém, pode ser tarde demais.

Quando Nader emprega a imagem das “trevas” para descrever a situação atual do Brasil, ela retoma uma metáfora muito utilizada na literatura iluminista, que superou a repressão do obscurantismo medieval. O conhecimento (tecnológico, científico e filosófico), segundo os iluministas, equivale à luz, já que é a luz que permite a visão, que por sua vez, é o único sentido que, junto ao tato, vai além da subjetividade e nos coloca em contato com a objetividade (tridimensional do espaço, tempo e causalidade). Os demais sentidos realizam esse efeito apenas em referência à visão e ao tato. Justamente por isso, o oposto do conhecimento é simbolizado com a imagem das trevas. Afinal, na escuridão há a condição básica da ilusão, o erro e o tropeço. Nas trevas reinam os interesses particulares, a cizânia dos poderes, as superstições e os medos. Nas luzes, verdejam os interesses universais, objetivos e humanos e há confiança e conhecimento.

Na Idade Média, o desenvolvimento do conhecimento foi obstruído pela Igreja, cujo poder se baseia na fé, que por sua vez, consiste em uma aprovação voluntária e subjetiva sobre temas incognoscíveis. Além disso, a ciência e a cultura também foram podadas pelo excesso de conflitos entre os diversos reinos e cavalheiros, que guerreavam por interesses e poder. Posteriormente, a arte, a filosofia, a ciência e a tecnologia foram revitalizadas no iluminismo, e até os “déspotas esclarecidos” aprenderam a patrocinar o prazer do conhecimento. Houve mais troca e menos conflito. O consumo aumentou e os centros urbanos se tornaram espaços de encontros dos mais diferentes setores. A vida humana se tornou mais dinâmica, diversificada e florescente. O homem passou a ocupar o centro, que antes pertencia ao demônio ou a Deus.

Caso o Brasil retorne à situação de ser apenas um país agrário, religioso e estático, isso significará um retrocesso semelhante ao do iluminismo à Idade Média. Os empresários brasileiros não conseguirão se desenvolver como os internacionais, e terminarão como Visconde de Mauá: asfixiados pelo ar anti-moderno, e contrário à fortuna e o progresso. O povo será controlado em uma situação análoga à do camponês medieval: sem qualificação, capacidade crítica e sublimação, terá seu potencial desperdiçado. Pouco se produzirá, se permutará e se consumirá. Muito se reprimirá e sofrerá. Os jovens baterão as asas para os cantos mais distantes do mundo. Lá de longe, sonharão em retornar a um Brasil dinâmico, autônomo e multifacetado. Fomos o último país da América a abolir a escravidão, seremos também o último a superar o feudalismo medieval?

Para que isso não aconteça, a sociedade deverá perceber que, com o avanço das técnicas de comunicação, transporte e comércio, a competitividade mudou nos tempos modernos. Se na Idade Média o duelo era travado com o vizinho próximo e aparentado, na atualidade, ele é estabelecido com o país distante, em termos físicos e culturais. A questão, agora, não é mais a de como erguer muros para não ser dominado pelo vizinho. É antes disso: como derrubar muros para que, junto a meu vizinho, nos fortaleçamos contra a dominação do estrangeiro. Enquanto não percebermos isso, seguiremos medievais e submissos. Teremos como a marca própria de nossas relações a derrota por 1 x 7. Nossos dirigentes poderão até vencer localmente, mas serão goleados internacionalmente. Diferentemente das elites internacionais, deverão erguer altos muros em suas casas, com pontas de lanças no cume, como se habitassem castelos medievais. Ao sair dos mesmos, se revestirão de carros blindados, análogos às armaduras dos cavalheiros e templários. E o povo seguirá orando, à espera do paraíso antigo ou moderno, a saber, a Copa do Mundo, Neymar, etc. O suserano dessa Transilvânia triste será uma espécie de Drácula, temido por todos, amado por ninguém.

Continuaremos vendendo matéria básica pelo preço de 1, e importando (às vezes a mesma matéria, industrializada) pelo preço de 7? Seguiremos exterminando toda nossa riqueza física e humana, e substituindo-a por lixo estrangeiro? Tite, Neymar e seus parças já concertaram a casa no futebol, por que não realizamos o mesmo com a nossa cultura? Desunidos como estamos, jamais reverteremos essa goleada, que já sofremos há séculos. Enquanto optarmos pela guerra de todos contra todos, e não nos esforçarmos para construir uma cultura autônoma, justa e coesa, perpetuaremos a derrota por 1 x 7 em nosso próprio território.

Como resolver esse “complexo de cachorro vira-lata”, que tradicionalmente característica o Brasil? Com educação, conhecimento e cultura. Na prática: devemos nos desenvolver modernamente – isto é, criar as condições básicas para superarmos a neurose de importar e imitar tecnologia, ciência e filosofia alheia, e sermos capazes de produzir esses dons sumamente humanos. Afinal, somos humanos e só precisamos de desenvolvimento cultural para atualizarmos nossa potência. Nesse caminho, o papel do Estado é fundamental. E o Estado somos nós. Cabe a nós, portanto, vencer o medievalismo e iluminar nossa sociedade moderna e pós-moderna.

Vejamos os seguintes dados da UNESCO: o Brasil tem 700 pesquisadores por um milhão de habitantes, a China, 1.100, a Argentina, 1.200, a Rússia, 3.100, a União Europeia, 3.200, os Estados Unidos, 3.900, a Coréia do Sul e Singapura, 6.400, e Israel, 8.300. Por que o Brasil tem poucos cientistas?. Ora, em comparação com os demais países do mundo, somos modernos ou pré-modernos, no que concerne ao princípio da cultura, o conhecimento?

Já avaliamos, em outros artigos, que embora severos, o impeachment de Dilma Rousseff e a condenação de Lula a dez anos de prisão foram justos. Aqui, porém, em que tratamos de ciência e educação, devemos também ser justos com os dois ex-presidentes e reconhecer que seus quatorzes anos de governo foram exemplares nesse fim principal da política. Escrevo isso de modo objetivo, apartidário e com base nos seguintes dados da UNESCO: a América do Norte gasta aproximadamente 5,3% do seu PIB em educação, os países da Zona do Euro, 5%, enquanto a média mundial é 4,2%. Até 1999, o Brasil não gastava mais do que 3,9% de seu PIB em educação. A partir dos governos de Lula e Dilma, esse número subiu, paulatinamente, até alcançar a marca dos 6,2%, em 2013. Além disso, não houve ruptura na tradição dos investimentos, mas continuidade progressiva.

No caso brasileiro, concordamos que a porcentagem de investimento em educação deva ser superior ao da América do Norte e Euro, dado que, como passamos séculos sem investimentos, necessitamos de uma sobredose para recuperar o atraso. Alguns jornalistas gostam de avaliar essa questão pelo investimento per capita de cada país em educação. Nessa perspectiva, é óbvio que o Brasil gasta mais do que a média mundial, uma vez que é a sexta economia do mundo. No entanto, essa avaliação não é a mais correta, pois equivale a aplaudir os gastos de um pai rico que dá uma educação pobre ao filho. Apesar dessa educação ser mais custosa do que a que um pai pobre pode oferecer a seu filho, o pai rico não deixa de ser um mal investidor de seu dinheiro.

Conforme outro Site apartidário de jornalismo investigativo e de pressão pública, a Pública, é verdade que Dilma Rousseff sancionou, em 2014, o maior programa de política anti-medieval já proposto no Brasil: o Plano Nacional de Educação, que previu um gasto de 10% do PIB em todas os níveis educacionais. Investir em ciência e educação, porém, é colher no futuro.Uma política moderna tem em vista sempre o futuro; mas em um país medieval, em que vale apenas o instante imediato , uma política moderna pode naufragar caso a sociedade não aprenda a olhar mais para frente do que para o chão.

A porcentagem dos investimentos em educação em relação ao PIB atuais ainda não foram divulgados pela UNESCO, mas como os recursos com pesquisa e educação despencaram, a expectativa é que o número tenha retrocedido para abaixo da média mundial novamente.

Não é à toa que a influência da religião na política brasileira tenha crescido em proporção direta à derrocada do conhecimento. Afinal, como escreve Schopenhauer: “Fé e conhecimento se relacionam entre si como dois pratos de uma balança: na medida em que um deles se eleva, o outro se abaixa”[i].

Não chegaram a cotar o bispo criacionista Marcos Pereira para ocupar o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia, o qual só não foi ratificado por causa da reação negativa da opinião pública? No Brasil, curiosamente, defender a educação é sinônimo de “esquerdismo”. Contudo, nos países desenvolvidos os governos neoliberais e conservadores não promovem cortes (ao menos não como os que vêm sendo implementados no Brasil) em ciência e educação. No geral, em momentos de crise, eles diminuem a receita de programas sociais, da saúde pública – a ciência e a educação são sagradas. Isso de deve em parte a que elas próprias são condições do seu sucesso e “desenvolvimento” – o desenvolvimento do capitalismo empresarial depende da qualificação de uma mão de obra massiva. Algo semelhante ocorre com a reforma agrária. Diferentemente do que se pensa, a reforma agrária também é uma medida capitalista, empregada amplamente pelos países capitalistas. Afinal, o que é reforma agrária se não a garantia de não desperdício de recursos físicos e humanos de um país, voltada ao aumento de sua produção agrícola? Que o Brasil não desenvolva, porém, a ciência e a reforma agrária são dois sintomas de uma mentalidade feudal e estática?

Como despertar o gigante adormecido? Com as luzes da cultura: arte, filosofia, ciência e tecnologia.

Para esclarecer um pouco mais sobre a fórmula dessa solução, apresentaremos a seguir algumas considerações de Schopenhauer sobre o poder racional-científico humano, base de sua cultura e distinção ante os demais animais:

“Esta concentração [λόγος, ratio, razão], a capacidade de reflexionar voltando-se sobre si próprio, é propriamente a raiz de todas as obras teóricas e práticas pelas quais o homem eleva-se tanto sobre os brutos; em primeiro lugar, do cuidado com o futuro, a partir da consideração do passado; logo, de sua atividade deliberada, planejada, metódica, em cada empresa; também da colaboração de muitas pessoas para um mesmo fim; e, por isto, da ordem, da lei, dos Estados, etc. – Mas particularmente os conceitos são o material próprio das ciências, o fim das quais, que logra, em última análise, reduzir-se a conhecimento do particular pelo geral”[ii].

As artes, a filosofia, a ciência e a tecnologia são, para Schopenhauer, dons sumamente humanos, pelo quais esse animal “tanto se eleva sobre os brutos”. Eles todos, porém, são frutos da faculdade exclusiva que o homem tem em toda natureza: a razão. É possível encontrar nos demais animais habilidades que lembram o poder reflexivo humano. Porém, isso ocorre em um nível tão baixo, que, do ponto de vista universal, Schopenhauer está certo quando reduz as principais semelhanças e diferenças do homem com os animais às seguintes capacidades:

“O animal sente e intui; o homem, pensa (denkt) e sabe (weiss). Ambos querem (wollen)”[iii].

Schopenhauer ensina que a razão (Vernunft) é a faculdade das representações abstratas, isto é, dos conceitos (Begriffe). Esses, por sua vez, se originam das representações intuitivas, que nos chegam pelos cinco sentidos do corpo. Embora todos os animais sejam capazes de sensibilidade, percepção e entendimento de relações causais básicas, apenas o homem tem a faculdade da abstração, isto é, somente ele pode decompor as partes das representações intuitivas, e assim, isolá-las para poder conhecer cada uma por si. Nesse processo, muito do intuitivo é omitido – mas é exatamente por isso que os conceitos (Begriffe) podem abarcar (begreifen) uma infinitude de objetos: pois ao destituírem os objetos de suas diferenças próprias, e ao manterem o que lhes é comum, fixando o gênero assim resultante a uma palavra, surge para o homem a reflexão, a razão, e o pensamento.

O mundo racional é, portanto, para Schopenhauer, um reflexo do mundo sensível e intuitivo. Ele não pode criar nada cujos elementos básicos não sejam dados pelo último. Pode apenas combinar seus elementos, reuni-los em gêneros diversos (processo esse que se chama síntese), ou inversamente, decompor os gêneros em partes cada vez menores (processo que se chama análise). Com base em seu poder racional, o homem cria três bens fundamentais de sua cultura: a linguagem, a ação calculada e as ciências. No século V a. C., o filósofo afirma que a civilização europeia conheceu uma espécie de Idade de Ouro. Nela, a razão foi cultuada acima das superstições, e o homem pariu os fundamentos da política, jurisprudência, ciência, arte e filosofia atuais. Caso comparemos o assim chamado “século de Péricles”, com as condições em que o homem viveu da Idade Média, por exemplo, no século XIV – o filósofo afirma se assustar com o resultado:

“Mal podemos acreditar que temos diante dos olhos seres de uma mesma espécie. De um lado, está o mais elevado desdobramento da humanidade, a excelência das instituições estatais, uma legislação sábia, conselhos municipais inteligentes, a liberdade regulada racionalmente, todas as artes, e entre elas a poesia e a filosofia, no cume de suas realizações (…) De outro lado, uma época em que a religião aprisionou a mente e violentou o corpo dos homens. Um período em que cavaleiros e padrecos despejaram todo o fardo da vida nas costas de suas bestas de carga em comum, o terceiro estado. Um tempo em que surgiu o direito do mais forte, o feudalismo e o fanatismo em estreita união. Em seus séquitos, a terrível ignorância e a obscuridade. Bem como suas correspondentes intolerâncias, discórdias de fé, guerras religiosas, cruzadas, perseguições de heréticos, inquisições e etc.. (…) Como é possível que os cenários tenham mudado desta maneira?”

Conforme Schopenhauer: (1) por causa do domínio da religião (isto é, do plano do incognoscível, descrita como trevas) sobre a razão (ou seja, o plano do cognoscível, sensível às luzes), e (2) pelas guerras provocadas, sobretudo, pelas migrações forçadas pelo avanço de Átila, Genghis Khan, Timur, etc.. Nem sempre a história caminha rumo ao progresso: eis a conclusão do filósofo. Às vezes, retrocedemos, e a transição do período clássico ao medieval exemplifica esse retrocesso. Por isso, devemos estar atentos para não permitirmos que nossas instituições percam a batalha contra o desconhecimento. No campo da ciência, Schopenhauer afirma que “quando o saber e a fé se colidem, o último se estilhaça, porque é de uma matéria mais fraca do que o primeiro”[iv]. Essa colisão, porém, é desnecessária, pois para o pensador, é possível haver respeito entre ambos, desde que a ciência se aplique ao campo do cognoscível, e a fé se restrinja ao incognoscível. Quando essa fronteira é respeitada, Schopenhauer afirma que:

“As religiões são (…) um inestimável benefício para o povo [por serem uma espécie de estrelas-guia da virtude e consolos ao sofrimento]. Mas se elas tentam se opor ao progresso da humanidade no conhecimento da verdade (…) devem ser empurradas de volta para seu lado”[v].

Historicamente, é uma pena que o obscurantismo religioso invada com tanta frequência o campo da ciência e da filosofia, e que, para não serem expulsas de volta ao incognoscível, gostem de amordaçar a ciência e a filosofia. Em virtude dessa frequente invasão, Schopenhauer polemiza contra a religião com as seguintes palavras:

“As religiões são como vaga-lumes, precisam de escuridão para brilhar. Um certo nível de ignorância é, de fato, sua condição necessária. O único elemento no qual elas podem viver. Por outro lado, tão logo a astronomia, a ciência natural, a geologia, a história, o conhecimento dos países e dos povos espalham suas luzes por todos os lados, e até mesmo a filosofia pode ter uma palavra, então a fé fundada em milagres e revelações só pode desaparecer (…) Talvez esteja, de fato, a ponto de chegar o momento tão frequentemente profetizado em que o ocidente se despedirá da religião, como uma ama de leite, cujos cuidados foram superados pela criança, que doravante, será incumbida a um tutor privado. Afinal, não há a menor dúvida de que doutrinas de fé baseadas em autoridades, revelações e milagres são um auxílio bem mais apropriado à infância da humanidade. E que ainda se encontra em sua primeira infância uma raça cuja completa existência não comporta mais do que, aproximadamente, cem vezes a vida de um homem de sessenta anos, – isso deve ser admitido por qualquer um sem grande dificuldade”[vi].

Como a ciência, a filosofia e a tecnologia são dons humanos preciosos e delicados, devemos cuidar deles, e sobretudo, quando o obscurantismo medieval tenta esmiúça-los. A Igreja tentou acorrentar o conhecimento no passado, mas foi vencida pelo amor ao conhecimento, que vem das profundezas humanas. Para que ele não corra o risco de morrer novamente, o Estado tem que ser seu principal gestor. O cuidado com a ciência, a educação e a filosofia devem ser os principais fins da política: mais importantes até mesmo que o dólar, a produção de automóveis e etc.. Quando o Estado se encolhe e esses dons ameaçam desaparecer, a sociedade civil precisa protestar contra essa ameaça de medievalismo. Afinal, tudo depende da razão e do pensamento e qualquer desenvolvimento é filho da ciência e da filosofia. Suplantar o medievalismo, em nosso país, equivalerá a superar a verdadeira derrota de 1 x 7, que sofremos em nossas relações internacionais. Quando o Brasil libertar sua potência gnosiológica e humana, ele esporulará uma beleza análoga ao brilho futebolístico ressuscitado por Neymar e seus parças. Se Neymar e os parças conseguiram esse recobramento, apesar da corrupção administrativa de nosso futebol, por que não poderemos fazer o mesmo com as bases de nossa civilização?

Nos dois seguintes links, é possível ler e assinar dois abaixo-assinados em favor do investimento público básico em pesquisa científica, a nível federal e estadual paulista:

 

ASSINE AQUI  (PELA CIÊNCIA NO BRASIL)

E AQUI (SÃO PAULO – FAPESP)

 

Longe de querer fazer panfletarismo partidário, acreditamos que a pressão científica e civil é imprescindível ao debate democrático e que a internet é um veículo fundamental na salvaguarda dos direitos constitucionais.

 


[i] SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung. In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band I. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 408.

[ii] SCHOPENHAUER, A.. Satz vom Grunde, In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band III. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 125.

[iii] SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung. In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band I. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 74.

[iv] SCHOPENHAUER, A.. Parerga und Paralipomena II. In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band V. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, p. 425-6.

[v] SCHOPENHAUER, A.. Die Welt als Wille und Vorstellung – Band II. In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band II. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, 1986, p. 168.

[vi] SCHOPENHAUER, A.. Parerga und Paralipomena II. In: SCHOPENHAUER, A.. Sämtliche Werke Band V. Org.: Wolfgang F. von Löhneysen. Stuttgart/Frankfurt am Mein: Suhrkamp, p. 409.

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Um comentário em “TREVAS OU CIÊNCIA: SUPERAREMOS O VERDADEIRO 1 X 7 ?

  1. Completamente verdadeiro: com esses cortes orçamentais em Ciência e Pesquisa, o Brasil caminha de volta às trevas e ao espírito medieval. Mais ainda: a frase “Não se faz copa do mundo com hospitais” (que, seja dito, foi pronunciada pelo Ronaldo que chamamos de “Gordo”, para distinguir do “Gaúcho” ou do “Cristiano”) durante as agitadas polêmicas em 2014, antes do 7 a 1, é equivalente, em tergiversação livre, à fórmula romana, e portanto ainda mais antiga: “ao povo, pão e circo”. Com isto, a triste figura, que outrora fosse o ídolo do povo brasileiro, se transforma em um grotesco visionário que, na sua brutalidade, vem oferecer aos que antes o celebravam o diagnóstico mais preciso da sua patética condição própria.

    Outra nota: fora as críticas que possam existir em relação ao prêmio Nobel, é sempre um orgulho para qualquer nação – sejamos honestos- ser condecorada com ele. Aos comentários do autor do anterior artigo cabe adicionar que o Brasil não somente está em desvantagem em relação a potências como Alemanha ou Estados Unidos, mas também – e dado que ele sequer aparece na lista oficial – em desvantagem em relação a países menos desenvolvidos como a Romênia, inclusive a terras exóticas como o Azerbaidjão ou às pequenas “Ilhas Faroé”. Eis um dado tão sugestivo quanto preocupante. Mais um sintoma da decadência.

    Contudo, o Brasil é uma terra jovem, um gigante continental, e certamente possui recursos e meios para investir em ciência e pesquisa.

    No contexto da atual crise política é imprescindível a movimentação da população para que tais recursos não se escorram nem desapareçam. Sendo assim, as propostas de abaixo-assinados são de enorme utilidade. No entanto, é necessário ser consciente de que elas não são de todo eficazes.

    Mas só há trevas em contraste com as luzes, e onde há luz há – deve haver – esperança. Iniciativas como a do aplicativo Mudamos podem vir a ser, nesta circunstância, cruciais e decisivas.

    Aplicativo Mudamos

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