O QUE DESCARTES DIRIA A TRUMP

O QUE DESCARTES DIRIA A TRUMP

Nem bem assumiu a presidência, Donald Trump bateu um recorde histórico de impopularidade. Segundo a agência de pesquisa Galoup US Daily, o potentado registrou, em 11/3/2017 e após um mês e meio de assunção do cargo, a marca histórica de 49% de reprovação e 45% de aprovação. O dado positivo é aproximadamente 20% inferior ao da maioria dos presidentes anteriores, no início do mandato. Pergunta-se agora o porquê da rejeição tão alta e precoce.

 

Trata-se de um fenômeno curioso pois, em geral, passado o período das eleições e vencida a disputa, o recém-empossado costuma ter uma aprovação mínima de 51%, oriunda de seus votantes, acrescidos de uma parcela dos eleitores “vencidos” e otimistas, que querem dar chances ao governo de fazer um bom trabalho. Disso resulta a taxa média normal de 60 e pouco por cento de aprovação do presidente, no início do mandato.

Com Trump, porém, isso não ocorreu. Provavelmente porque ninguém da oposição se dignou a dar-lhe crédito, e porque parte de seus eleitores já se arrependeram do voto. Por quê? A causa não tem muito a ver com a economia e a sociedade norte-americana, que não vão mal a esse ponto. Dinheiro, emprego e qualidade de vida não faltam na terra do Tio Sam.

Poderíamos imaginar que a xenofobia, o machismo e as excentricidades do novo presidente explicariam a rejeição. Contudo, essa elucidação é incompleta; pois as características mencionadas não são inéditas entre os presidentes dos EUA, diferentemente da reprovação.

O caso Trump intriga porque ele vem sendo desaprovado até mesmo pelos conservadores norte-americanos, com os quais partilha uma série de valores políticos e sociais. Isso sugere que seu fracasso se deva talvez não apenas a questões de valoração subjetiva – por exemplo, “ele não gosta de estrangeiros”, de “mulheres”, etc.. – mas a questões estruturais e objetivas, como sua própria relação com as operações básicas do pensamento.

Nesse último aspecto, a epistemologia teria muito o que ensinar-lhe. Imaginemos uma inusitada situação, portanto, em que Sócrates, Aristóteles, ou melhor, René Descartes (1596 – 1650), se dispusesse a ajudar o atingido presidente, o que ele lhe diria? Provavelmente, Descartes começaria pelo início: qual é o princípio da política? A ação? E o princípio da ação? O pensamento.

Para Descartes, o pensamento – o “cogito, ergo sum (Penso, logo existo)”[i] – é o princípio de absolutamente tudo, desde o comportamento até o conhecimento. Seu fim é o conhecimento. E como construir um método para um conhecimento certo e seguro foi o que Descartes se propôs a realizar em Discurso do Método (1637). Esse texto e Meditações Metafísicas (1641) seriam de enorme ajuda para D. Trump, por incrível que pareça.

Em Meditações, Descartes colocou em dúvida a realidade de absolutamente tudo o que seus sentidos corporais lhe ensinara, com o argumento de que, se os sentidos nos enganam algumas vezes – o que sabemos que acontece (nas ilusões de óptica e etc.) – então, não são uma fonte segura de conhecimento e devem ser descartados, na procura de um saber indubitável. No entanto, se é verdade que os sentidos nos enganam em algumas situações complexas, com as coisas mais elementares, é difícil que nos trapaceiem sempre, podendo, portanto, ser de confiança em contextos simples. Contudo, mesmo em relação às coisas mais óbvias, Descartes afirma que os sentidos nos enganam. Afinal, acreditamos, por exemplo, nos sonhos, escutar sons, ver e tocar objetos, muito embora estamos sempre deitados em uma cama, sem nada do que nos representamos ao redor. Se a verdade se nos vai assim tão facilmente , talvez seja impossível alcançar um conhecimento incontestável da realidade?

Novamente, porém, Descartes supera a “dúvida do sonho” com o pensamento de que, se os sonhos nos enganam com mil ilusões, com outras, pouco poder possuem. Afinal, dormindo ou acordado, 2 + 3 é sempre 5, a menor distância entre dois pontos é uma reta, etc.. Contudo, a dúvida cartesiana culmina com a seguinte hipótese: é possível que exista um Deus não bondoso, mas maligno, que emprega toda sua força para nos enganar até mesmo em nossas crenças mais básicas, como por exemplo, que 2 + 3 = 5 e afins. Dado sua onipotência, esse Deus é bem sucedido na artimanha, de modo que a mera possibilidade dessa situação é suficiente para afastar-nos da pretensão de qualquer certeza absoluta da realidade.

Após esse pensamento, Descartes mergulhou em desespero, e por fim, encontrou sua “eureca” na seguinte concepção: pode ser que tudo, absolutamente tudo que eu me represento seja ilusório; contudo, que eu sou, eu existo – disso posso estar certo. E sou alguém que se representa coisas. Isto é, sou um ser pensante. “Cogito ergo sum”[1].

O pensamento, a razão e o bom senso são, para o autor, as duas coisas melhor partilhadas do mundo. Afinal, todos parecem muito satisfeitos com a medida de pensamento que lhes tocou, e até mesmo os excessivos, no fundo, acreditam que seu excesso é a justa medida. A diversidade de opiniões, vícios e virtudes entre os homens não se deve a uma diferença de graus de pensamento, mas aos caminhos, métodos e meios pelos quais conduzem o bom-senso.

Diante disso, Descartes propôs descobrir o método ideal à aplicação do pensamento em sua tarefa de conhecimento da realidade. Esse método seria de enorme auxílio a Trump, que parece repelir até mesmo seus aliados políticos, por empregar tão mal o pensamento, na direção de uma das sociedades melhor desenvolvidas epistemologicamente.

Em Discurso do Método, Descartes revelou que a maior descoberta extraída de sua formação escolar foi sua completa ignorância. Assumido isso, o autor agregou que muito aprendeu da literatura, matemática, teologia, filosofia e demais ciências. A literatura é como “uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados (…), na qual nos revelam tão-somente o melhor de seus pensamentos”[v]. A matemática fundamenta todas as demais artes, e muito satisfaz a curiosidade, pela certeza e evidência de suas razões. A teologia nos “ensina a ganhar o céu” e a filosofia “dá meio de falar com verossimilhança de todas as coisas e de se fazer admirar pelos menos eruditos”[vi].

Entre o conhecimento colhido pelo pensador, também se encontrava o do limite das ciências. A literatura não representa a verdade, mas apenas ficções, que caso cultuadas sem espírito crítico, podem facilmente levar as pessoas a repetirem em suas vidas as “extravagâncias dos paladinos de nossos romances”[vii]. A lógica ensina, no fim da conta, o que todo mundo já sabe, e a geometria e a álgebra, apenas conceitos abstratos, de modo cansativo e distante das grandes questões da vida. A própria teologia, por sua vez, se suprime a si própria, quando afirma que o céu não se ganha com conhecimento, mas com a graça divina. E na filosofia “não se encontra uma só coisa sobre a qual não se dispute, e por conseguinte que não seja muito duvidosa”[viii].

Como todas as ciências “tomam seus princípios da Filosofia”[ix], o autor concluiu que todas elas são tão duvidosas como a sua mãe. De modo, que findado seus estudos teóricos, Descartes decidiu consultar o “grande livro do mundo”[x].

Nessa nova fase de sua vida, o filósofo viajou todos os cantos do planeta, e colheu das mais diversas e variedades experiências. Após muitas aventuras, constatou que o grande “livro do Mundo” também estava repleto de contradições, e o que era aprovado e até venerado por certos povos, era justamente repudiado por outros, que por sua vez, valorizavam o que era rejeitado pelos primeiros. Diante desse caos de medidas, o observador decidiu impedir-se de “crer demasiado firmemente em nada do que lhe fora inculcado só pelo exemplo e pelo costume”[xi]. E passou a procurar o conhecimento no que denominou como a “ciência de si próprio”. Foi nessa última ciência que o autor afirmou ter obtido “muito mais resultado (…) do que se jamais tivesse se afastado de seu país e de seus livros”[xii].

Em seu autoconhecimento, Descartes perseguiu o “verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas de que seu espírito fosse capaz”[xiii]. Para tanto, considerou os benefícios da matemática – vale repetir – clareza e distinção – e despiu-os de suas desvantagens – como a abstrusidade e o apartamento dos principais problemas da vida. No avesso da inúmera quantidade de regras da lógica, álgebra e geometria, o autor isolou quatro preceitos, que delimitaram seu método para o saber. Ei-los:

  • “Jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, (…) evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e (…) nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida (…)
  • Dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las (…)
  • Conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros (…)
  • Fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir”[xiv].

Podemos sintetizar as quatro normas anteriores com as seguintes expressões: 1 – discernimento crítico, pautado na evidência; 2 – análise dos problemas; 3 – ordenação sintética e progressiva do exposto; e 4 – enumeração e revisão geral do pensamento.

Esse método é aplicado até os dias de hoje pelas ciências e filosofia; no entanto, muitas pessoas ainda derrapam em seu uso habitual da linguagem nas falhas que resultam do desrespeito de seu conteúdo. Podemos arriscar que a maioria da humanidade desonra, sequer, o primeiro preceito, a saber, o de evitar a precipitação e a prevenção. Segundo G. Lebrun, a precipitação consiste em “julgar antes de ter chegado à evidência”, e a prevenção se constitui da persistência dos “prejuízos de infância”[xv].

O que Donald Trump tem a aprender disso? Absolutamente tudo.

O atual presidente dos EUA vem sendo considerado pela opinião pública o “rei da precipitação”, pelas recorrentes inverdades e imprecisões de suas declarações. Não há dúvida de que o divórcio de seu discurso com a certeza, a evidência e a luz natural da razão é uma das causas principais de seu recorde de reprovação entre os cidadãos dos EUA, após poucos meses de tomada da presidência.

Quem o diz é, entre outras organizações apartidárias, a Polifact, que já foi premiada com o prêmio Pulitzer, e em outras ocasiões, condenou políticos democratas. A Polifact deu a Trump o indesejado Prêmio Mentira do Ano 2015, e declarou, em seu site, que “nenhum outro político tem tantas declarações com uma pontuação tão negativa”.

Conforme a entidade, apenas 16% das afirmações de Trump sobre assuntos complexos podem ser consideradas verdadeiras ou praticamente verdadeiras. Em 14% das vezes, Trump diz “meia-verdades” (Half-true), e em 70% dos casos, oscila entre o praticamente falso, o falso e o lunático.

 

Por que Trump não lê O Discurso do Método, de Descartes, e corrige sua relação com a linguagem e o pensamento? Ao invés disso, porém, ele prefere o ataque: culpa a mídia, que o persegue. Nesse ataque, Trump acerta alguns tiros. Afinal, não apenas o presidente, mas também os canais de comunicação de massa têm muito o que aprender de Descartes.

Eis uma boa pergunta a se fazer ao presidente: “Em sua recorrente crítica à mídia encontramos uma semelhança com o que a esquerda filosófica escreve sobre o tema, desde o século XIX. Conforme a ‘escola de Frankfurt’, por exemplo, a televisão está longe de ser um veículo de formação e educação (Bildung), pois na maioria das vezes, mal consegue assumir o título de informação, trabalhando mais no sentido da alienação social. O senhor concorda, portanto, com T. Adorno, em suas declarações antimidiáticas? Aceitaria que a mídia incute ‘nas pessoas uma falsa consciência e um ocultamento da realidade’, impondo-lhes ‘um conjunto de valores como se fossem dogmaticamente positivos’?”[xvi].

Talvez Trump responderia apenas que a filosofia também o persegue. De uma coisa, porém, Trump não pode escapar: ele não é a apenas vítima da distorção midiática.

Citemos um exemplo de raro jornalismo informativo, que se por um lado honra o conteúdo do método cartesiano, por outro, prova que Trump é precipitado e preconceituoso. Vale a pena ler esse texto na íntegra: Seis Inverdades Ditas Por Trump E O Que Acham Seus Eleitores, da British Broadcasting Corporation. Nele texto, a BBC documenta, no bom espírito “cartesiano” que os ingleses sempre souberam incorporar a seus hábitos, a data, o local e as palavras exatas de Trump, sobre seis temas de complexidade política, em que o avesso do que queria o pai da filosofia moderna foi praticado.

1- Trump afirmou que, quando estava em Jersey City, em New Jersey, viu “milhares” de árabes comemorando a queda das Torres Gêmeas. E 2 – declarou que o México manda o “pior” de seu povo aos EUA, entre os quais, “drogados, criminosos e estupradores”, e apenas “alguns presumivelmente bons”.

O que diria Descartes sobre isso? Certamente, que para realizar afirmações tão bombásticas assim, baseadas em números e proporções duvidosas, são necessárias minuciosas evidências. Elas não foram apresentadas, e de fato, os dados de pesquisa social as contestam frontalmente.

3- Trump ofendeu uma série de mulheres com palavrões desnecessários de serem repetidos; e 4- em 9/2015, afirmou que o desemprego nos EUA estava em 42%. Esse último dado foi desmentido pelo Escritório Nacional de Estatísticas, que anotou, naquela data, 5,1% de desemprego. E o que dizer da “fundamentação” de insultos machistas?

5- Em 9/2015, Trump afirmou que 200 mil refugiados sírios chegaram aos EUA, quando, na ocasião, os dados oficiais somavam 10 mil. E 6 – Trump insistiu que Obama nasceu em Quênia, e por isso, não poderia ser presidente dos EUA. Além de possivelmente racista (pois o conteúdo latente dessa última acusação pode ter sido o preconceito de que Obama não merecia ser presidente, por sua afrodescendência), essa declaração foi refutada por documentos oficiais da Casa Branca, da qual Trump agora é diregente.

Infelizmente, A BBC não incluiu na lista uma das afrontas mais graves de Trump contra o rigor cartesiano pela verdade. Analisemos, portanto, esse sétimo pecado capital do presidente:

 

 

“O conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para tornarem as fábricas norte-americanas não competitivas” – emborcou Trump, em seu Twitter, e ainda conpletou: “Está realmente frio lá fora (…) Nós podemos tirar uma grande vantagem do aquecimento global!

Já de princípio, ambas as anotações são contraditórias, pois se em uma delas o aquecimento global é negado, na outra, é admitido e comemorado.

No entanto, ambas se filiam à hipótese de que o aquecimento global não é um problema a ser enfrentado por uma política humanitária conjunta, na qual os EUA deveriam ocupar um papel de liderança (pois com a China emitem 40% dos gases poluentes).

O que Descartes diria sobre o problema do aquecimento global? Em primeiro lugar, que devemos evitar a precipitação e a prevenção de afirmarmos o que desconhecemos, mesmo que, com isso, tenhamos que renunciar às hipóteses mais agradáveis e populistas sobre o assunto.

Em segundo lugar: que tal examinarmos a sério o assunto, começando pela análise da situação, seguida de um ordenamento sintético e lógico-progressivo das razões, que a partir de premissas elementares, avançasse em direção a conclusões complexas e aprováveis pela luz natural da razão? Após a enumeração e revisão geral da abordagem desenvolvida, teríamos o seguinte diagnóstico que mereceria ser chamado de científico:

 

Fruto de cinco anos de trabalhos intensos, dirigidos por 122 orientadores, empreendidos por 515 colaboradores, e aprovado por 337 especialistas das mais diversas nações, a Comissão Intergovernamental para Alteração Climática (CIAC), das Nações Unidas publicou, em 2001, o Terceiro Relatório de Avaliação de Mudanças Climáticas, e imediatamente recebeu o apoio e a divulgação do filósofo australiano Peter Singer, em Um só mundo – A Ética da Globalização (2002).

Para citarmos apenas algumas das conclusões mais importantes do Relatório sublinhadas por Singer: há fortes evidências de que nosso planeta sofreu um significativo aumento de temperatura entre os séculos XIX e XXI, em virtude da concentração na atmosfera de gases emitidos pela atividade humana industrial.

Nove dos dez anos mais quentes desde 1860 ocorreram na década de 1990; a temperatura tem subido em uma velocidade três vezes maior do que no início do século XX; o nível do mar se elevou entre 10 e 20 cm; os glaciares não-polares diminuíram em 10%; os desastres naturais eólicos, como El Niño, se intensificaram; as doenças tropicais, ligadas a seres vivos que se proliferam no calor, também aumentaram; e a concentração de CO2, CH4 e N20, que provocam o efeito estufa, cresceu assustadoramente.

A previsão do Terceiro Relatório para 2100 é que a temperatura mundial se elevará entre 1,4 e 5,8oC; a precipitação, as variações pluviométricas ao longo do ano e o contraste térmico entre as regiões também se incrementarão; consequentemente, teremos mais alternância entre períodos de seca e de inundações, bem como entre calor e frio. Se intensificarão os desastres eólicos e as doenças tropicais; a produção alimentar e o acesso à água serão afetados; e o nível do mar subirá entre 9 e 88 cm.

Naturalmente, inúmeros problemas políticos, econômicos e sociais decorrerão disso. Entre eles, a mortalidade direta de seres humanos, em decorrência de desastres, doenças, frio, calor, fome e etc.. Alguns animais provavelmente serão extintos, outros se proliferarão de modo preocupante. O ecossistema do planeta será desequilibrado, e sobretudo, nas regiões equatorianas, costeiras e glaciares. E para completar, nas palavras de Singer:

“Estas previsões só vão até 2100, mas, mesmo que as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa estivessem estabilizadas nessa altura, as alterações do clima persistiriam durante centenas ou talvez milhares de anos. Uma alteração ínfima das temperaturas mundiais médias poderia, no próximo milênio, levar ao degelo da calota de gelo da Groenlândia, que, aliado ao degelo da banquisa do Antártico Ocidental, provocaria um aumento de 6 metros das águas do mar (Cf. HOUGHTON. Climate Change 2001: The Scientific Basis)”[xvii].

Semelhante aumento no nível do mar alagaria cidades, regiões e países inteiros. Por isso, as Nações Unidas promoveram, em 1992 e no Rio de Janeiro, uma Conferência para o Ambiente e Desenvolvimento, em que 181 governos assinaram um compromisso de diminuírem a emissão dos gases provocadores do efeito estufa. Na prática, muito pouco se realizou posteriormente: os EUA não só não diminuíram, como aumentaram em 14% a poluição entre 1990 e 2000.

Novos acordos e conferências foram realizados, entre os quais o Protocolo de Quioto, de 1997. O governo Bush, contudo, se recusou a aderir ao Protocolo, e manteve a prática de dar de ombros ao diagnóstico científico. Obama, pelo contrário, assinou em 2015 e no chamado Acordo de Paris, um pacto de diminuição de 32% a emissão de CO2 pelos EUA, até 2030. Após o acordo, Obama iniciou a implementação de uma regulamentações nacional destinada a honrar o compromisso assumido. No entanto, em fevereiro de 2016, a Suprema Corte dos EUA revogou as normas do presidente e devolveu à indústria o “direito” de seguir poluindo.

Atualmente, já sabemos o que o presidente mais impopular da história dos EUA disse sobre o aquecimento global: algo como, “vamos fritar um ovo com bacon nele”, ou algo parecido?

Supondo que por algum milagre, Descartes aparecesse em um sonho a Trump, e lhe ensinasse o hábito de duvidar de suas convicções mais “inabaláveis”. Depois de lançá-lo ao desespero da “dúvida hiperbólica”, imaginemos que o filósofo iniciasse o presidente na arte de tomar por verdade apenas o que se apresenta com plena clareza e distinção. O que aconteceria?

Em um primeiro momento, talvez Trump silenciasse a voz do estômago e os “vapores negros da bile”[xviii], e encarasse as evidências incômodas: sua impopularidade, o aumento da rigidez do inverno em seu país, o incremento das catástrofes eólicas, a insatisfação dos oprimidas, etc..

Supondo que Descartes ensinasse a Trump seu método de busca e apreensão da verdade, e fizesse com que ele revisse a relação global com o pensamento. E no final da lição, supondo que Descartes pedisse ao presidente que sintetizasse, em uma frase, o aprendizado colhido, qual frase seria? Ao estilo das expressões populares de que gosta o presidente, quem sabe algo como: “Lie has short legs (mentira tem perna curta)”.

 


 

BIBLIOGRAFIA

 

ADORNO, T.. Educação e emancipação. Trad.: W. L. Maar. São Paulo: Ed. Paz Terra, 2000.

DESCARTES, R.. Meditações. Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

DESCARTES, R.. Discurso do Método. Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

HEIDEGGER, M.. Sobre o Humanismo. Trad. Ernildo Stein. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

LEBRUN, G.. Prefácio e notas. In: DESCARTES, R.. Discurso do Método. Op. Cit., 1973.

SINGER, P.. Um Só Mundo – Por uma Ética da Globalização. Trad.: M. de Fátima St. Aubyn. Lisboa: Gradiva. 2004.

 

[1]

[i] DESCARTES, R.. Discurso do Método. Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. São Paulo: Abril Cultural, 1973. P. 55.

[ii] HEIDEGGER, M.. Sobre o Humanismo. Trad. Ernildo Stein. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974. P. 348.

[iii] HEIDEGGER, M. Ibidem.

[iv] HEIDEGGER, M. Ibidem.

[v] DESCARTES, R.. Discurso do Método. Op. Cit., 1973. P. 39.

[vi] DESCARTES, R.. Idem. P. 39.

[vii] DESCARTES, R.. Idem. P. 39.

[viii] DESCARTES, R.. Idem. P. 40.

[ix] DESCARTES, R.. Ibidem.

[x]  DESCARTES, R.. Idem. P. 41.

[xi] DESCARTES, R.. Ibidem.

[xii] DESCARTES, R.. Ibidem..

[xiii] DESCARTES, R.. Idem. P. 44.

[xiv] DESCARTES, R.. Idem. P. 45-46.

[xv] LEBRUN, G.. Prefácio e notas. In: DESCARTES, R.. Discurso do Método. Op. Cit., 1973. P. 45, nota de rodapé 22.

[xvi] ADORNO, T.. Educação e emancipação. Trad.: W. L. Maar. São Paulo: Ed. Paz Terra, 2000. P. 80.

[xvii] SINGER, P.. Um Só Mundo – Por uma Ética da Globalização. Trad.: M. de Fátima St. Aubyn. Lisboa: Gradiva. 2004.  P. 48.

[xviii] DESCARTES, R.. Meditações. Trad.: J. Guinsburg e Bento Prado Jr.. São Paulo: Abril Cultural, 1973. P. 94.

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