DOIS PILARES DA PESQUISA CIENTÍFICA: DEDUTIVISMO E FALSEABILIDADE

DOIS PILARES DA PESQUISA CIENTÍFICA: DEDUTIVISMO E FALSEABILIDADE

Na bandeira do Brasil, lemos: “Ordem e Progresso”. Trata-se de uma abreviação do lema Positivista de Comte: “o Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim“. Não é muito comum que bandeiras estampem palavras, talvez porque mesmo os vocábulos mais interessantes, como “Sabedoria”, “Beleza”, e “Liberdade”, podem facilmente se desgastar sobre o pano nacionalista.

 

No entanto, vivemos em um país positivista, e em um mundo positivista. E isso nossa bandeira exibe muito bem. O Positivismo, conforme Sabato, foi o ápice do otimismo ao qual chegou o homem moderno. Em seu século natal, o XIX, até que fez sentido: Darwin provou a evolução, o liberalismo “descobriu” a solução das imperfeições da economia, a tecnologia prometeu alcançar o céu, com as máquinas a vapor e a eletricidade.

Logo na sequência, porém, o século XX despertou o homem de seu prazeroso sonho positivo. Nas palavras de Sabato:

“El siglo XX esperaba agazapado como un asaltante nocturno a una pareja de enamorados un poco cursis. Esperaba con sus carnicerías mecanizadas, el asesinato en masa de los judíos, la quiebra del sistema parlamentario, el fin del liberalismo económico, la desesperanza y el miedo. En cuanto la Ciencia, que iba a dar solución a todos los problemas del cielo y de la tierra, había servido para facilitar la concentración estatal y mientras por un lado la crisis epistemológica atenuaba su arrogancia, por el otro se mostraba al servicio de la destruición y de la muerte. Y así aprendimos brutalmente una verdad que debíamos haber previsto, dada la esencia amoral del conocimiento científico: que la ciencia no es por sí misma garantía de nada, porque a sus realizaciones les son ajenas las preocupaciones éticas”[i].

Sabato afirma que o Espírito Moderno nasceu, no Renascimento, com o individualismo, o naturalismo e o humanismo, mas se reverteu, no Século XX, em seus extremos opostos: a massificação, a “maquinização” e a desumanização. O argentino está completamente certo de que esse desenvolvimento contraditório foi impulsionado por duas forças dinâmicas: “o capitalismo e a ciência positiva”[ii].

Desde uma perspectiva não mais humanista, mas epistemológica, Karl Popper (1902 – 1994) também criticou o Positivismo, em A Lógica da Pesquisa Científica (1959). Apresentado o pano de fundo anterior, comentaremos, nesse artigo, a concepção de ciência que Popper desenvolveu nesse livro, e que o forçou a se opor ao prisma da escola comtiana. Mais especificamente, dois conceitos basilares serão analisados aqui: o dedutivismo, que o autor opôs ao indutivismo positivista; e a falseabilidade, antagônica à verificabilidade definitiva. Não pensem, porém, que ensejo, aqui, qualquer oposição à bandeira brasileira, que por sinal, além de ter palavras está entre as poucas do mundo que omitem a cor rubra bélica.

O “Problema da Indução”

Popper sustenta que muitos autores, e em especial os positivos, acreditam que “as ciências empíricas se caracterizam pelo fato de empregarem os chamados métodos indutivos[iii]. Segundo essa concepção, as ciências começariam com a observação de inúmeros fatos. Sobre estes fatos observados se anotariam enunciados singulares (ou particulares) e, por meio da indução, se “generalizariam” os enunciados singulares, criando assim proposições universais.

Newton, por exemplo, teria observado inúmeras maçãs caindo do pé e, dessa observação junto com alguns outros experimentos controlados, teria estabelecido as leis da mecânica e a teoria da gravitação universal.

Tal procedimento é chamado “indutivismo”. Contra ela, Popper argumenta que a observação de casos singulares, por mais numerosos que sejam, não autoriza, com rigor lógico, a inferência de conclusões universais. O indutivismo não se justifica, portanto, logicamente, como método científico confiável.

Por exemplo, que eu tenha observado que muitos cisnes sejam brancos, não me legitima a dedução necessária de que todos os cisnes são brancos. A fundamentação indutivista é, portanto, falha, e deve ser descartada pela epistemologia contemporânea.

Nesse mesmo problema de falta de validação lógica do indutivismo incorremos, por exemplo, quando afirmamos que a verdade de enunciados universais científicos é “conhecida por experiência”[iv]. Essa asserção, muito típica do positivismo (e usada frequentemente em sua obstinada crítica à metafísica e ciências humanas), se baseia no “indutivismo”, de modo que, ao empregá-la, derrapamos no problema da impossibilidade de inferirmos enunciados universais a partir de enunciados singulares. Para Popper, “a descrição de uma experiência (…) só pode ser um enunciado singular, e não um enunciado universal”[v], e não há fundamento lógico algum que conduza do primeiro ao segundo.

Para evitarmos o problema do “indutivismo”, Popper entende que as ciências empíricas precisam assumir uma outra lógica, a saber, o “método dedutivo de provas” ou “dedutivismo”.

Conforme essa lógica, as ciências não se iniciam com a observação factual, mas sim com ideias. Essas ideias são formuladas em um sistema preliminar, onde não se encontram ainda “justificadas de algum modo”[vi]. Nesse estágio inicial, apresentam-se, portanto, “antecipações, hipóteses, sistemas teóricos ou algo análogo”[vii], e com base nas regras da lógica, se deduzem, agora sim com necessidade, uma série de proposições subsequentes.

O segundo passo para a ciência é o de submeter à prova o sistema teórico proposto, o que pode ser realizado de quatro modos diferentes. Nas palavras do autor:

 

“Há, em primeiro lugar, a comparação lógica das conclusões umas às outras, com o que se põe à prova a coerência interna do sistema. Há, em segundo lugar, a investigação da forma lógica da teoria, com o objetivo de determinar se ela apresenta o caráter de uma teoria empírica ou científica, ou se é, por exemplo, tautológica. Em terceiro lugar, vem a comparação com outras teorias, com o objetivo sobretudo de determinar se a teoria representará um avanço de ordem científica, no caso de passar as várias provas. Finalmente, há a comprovação da teoria por meio de aplicações empíricas das conclusões que dela se possam deduzir”[viii].

De acordo com o filósofo, essa última etapa é de extrema importância e ocorre da seguinte maneira: “Com o auxílio de outros enunciados previamente aceitos, certos enunciados singulares” são deduzidos da teoria, e especialmente aqueles “suscetíveis de serem submetidos facilmente à prova”[ix], isto é, aplicáveis à prática.

Somente nessa etapa é que entra em cena o famoso “método empírico”: o cientista deve realizar os experimentos mais detalhados e rigorosos, com o fim de falsificar (contradizer) sua teoria. Apenas nos casos em que a falsificação buscada não for bem sucedida, diz-se que a teoria é aceitável e foi provisoriamente comprovada: pois “não se descobriu motivo para rejeitá-la”[x].

Se por ventura qualquer um dos enunciados singulares deduzidos da teoria forem contraditos pelos experimentos, conclui-se, então, que o conjunto teórico do qual derivam é problemático e deve ser reformulado ou abandonado. “Na medida em que a teoria resista a provas pormenorizadas e severas”, porém, e não for “suplantada por outra no curso do progresso científico, poderemos dizer que ela ‘comprovou sua qualidade’ ou foi ‘corroborada’ pela experiência passada”[xi].

Diferentemente dos positivistas, portanto, que colocavam seu acento na observação factual primordial, e depois tinham que lançar mão de uma lógica falha, Popper prefere proteger a rigorosidade lógica do sistema científico, mesmo que, com isso, deva renunciar ao orgulho científico-positivista de criticar a metafísica e ciências humanas como campos que não parte da observação da experiência. Conforme Popper, as ciências empíricas também não partem da observação factual, pois o método empírico serve apenas para testar uma teoria, que, em sua totalidade, jamais pode ser completamente comprovada. Em outras palavras, não existe verificabilidade conclusiva no caso das ciências empíricas. O que as distingue da metafísica, bem como da lógica e matemática, é apenas sua capacidade de serem falseadas. Esses conceitos serão esclarecidos na sequência.

O “Problema da Demarcação”:

Popper denomina de o “problema da demarcação” a questão de estabelecer um critério confiável para se distinguir as ciências empíricas, de uma parte, e a matemática, a lógica e a metafísica, de outro lado.

Segundo o autor, os “velhos positivistas” defendiam que só são legítimos ou científicos os conceitos “derivados da experiência”. Em última instância, eles entendiam por derivados da experiência os conceitos “logicamente reduzíveis a elementos da experiência sensorial, tais como sensações (ou dados sensoriais), impressões, percepções”[xii] e afins.

Os positivistas modernos, por sua vez – diferencia o autor – já postulam como científicos ou legítimos os “enunciados reduzíveis a enunciados elementares (ou ‘atômicos’) da experiência – a ‘juízos de percepção’, ou proposições atômicas’”[xiii] e similares.

Em ambos os casos, porém, o filósofo entende que o mesmo critério de demarcação é assumido, a saber, exatamente o da Lógica Indutiva, criticada anteriormente. Isto é, as ciências empíricas partiriam, segundo eles, do particular (seja esse particular entendido como elementos sensoriais ou enunciados elementares), e depois, por meio da indução, se chegariam a leis universais empíricas. Por outro lado, as ciências formais e a metafísica não partiriam de elementos particulares, mas de universais-formais, incondicionados e etc. – isto é, de coisas não encontráveis a olho nu na natureza – de modo que se a matemática e a lógica mereceriam – conforme essa concepção – ser consideradas ciências por sua utilidade ou por quaisquer outras razões, a metafísica poderia ser lançada direto ao fogo.

Em poucas palavras, Popper afirma que o critério de demarcação do indutivismo é naturalista, isto é, os positivistas “acreditam estar obrigados a descobrirem uma diferença decorrente da natureza das coisas”[xiv]. Essas coisas, se observadas positivamente, ensejariam conceitos e enunciados dignos de incorporação científica; e quando isso não acontecesse, produziriam pseudossentenças sem sentido.

Popper, porém, se opõe duplamente a essa concepção de ciência. Em primeiro lugar, porque, como vimos, ela não explica como juízos universais podem ser deduzidos de conceitos ou enunciados singulares com rigorosidade. E em segundo lugar, porque certas ideias metafísicas são inevitáveis, e inclusive, favoráveis ao avanço da ciência, como por exemplo, o atomismo especulativo.

Conforme seu entendimento, certos positivistas tentaram contornar o problema da indução com a defesa (cética) de que a ciência não tem por objetivo o conhecimento de leis naturais universais. A ciência se limitaria, portanto, a compilar dados particulares, e apenas arriscar algumas previsões, no máximo, prováveis sobre objetos. Com isso, esses positivistas, segundo o autor, renunciariam ao que, para Einstein, “constitui o trabalho mais elevado”[xv] de um cientista (o conhecimento de leis naturais universais). De modo que se não peca por dogmatismo, como naquele caso (por meio do indutivismo), se peca por ceticismo, como nesse caso. Conforme Popper, o problema do ceticismo repousa em sua falta de fertilidade, enquanto dedutivismo mostra sua fertilidade “quando se trata de elucidar questões de teoria do conhecimento”[xvi].

Qual é, portanto, o critério de demarcação que, segundo Popper, melhor separa as ciências empíricas da matemática, lógica e metafísica?

O critério da Lógica Indutiva – concluamos essa questão – é o da verificação conclusiva, isto é, o que conduz à concepção de que “todos os enunciados da ciência empírica” devem ser suscetíveis de serem julgados conclusivamente com respeito à sua verdade e falsidade.

Como o critério da verificação conclusiva é incabível no caso de teorias universais – pois afinal – como argumenta Popper – como conseguiríamos verificar que todos os corpos se submetem, por exemplo, às leis da mecânica? – sua proposta de demarcação não pode ser a da “verificabilidade, mas sim a da falseabilidade de um sistema”[xvii]. Em termos mais claros e nas palavras do epistemólogo contemporâneo, em relação ao critério de verificação a ser adotado:

 

“Não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico”[xviii].

 

Com base no critério de demarcação da falseabilidade, Popper afirma que uma tautologia (por exemplo, “‘choverá ou não choverá amanhã”), não pode ser considerada empírica e científica, “porque não admite refutação. Da mesma maneira, teses como “2+3=5” (da matemática), “a = – a = 0” (da lógica) e “a alma é imortal” (da metafísica) também não incorporam o conteúdo de uma ciência empírica, pois não admitem falsificação.

Por outro lado, as teorias capazes de falsificação, e que não forem contraditas pelos experimentos mais severos e detalhados, poderão representar um avanço na ciência, caso além de não serem falsificados, não apresentem contradições internas e não sejam englobadas por sistemas mais amplos e pormenorizados.

Se todos esses critérios são atendidos, teremos produção, isto é, criação científica, pois essa comprovou, provisoriamente (nunca definitivamente), seu valor, ou em termos mais precisos: “não se descobriu [ainda] motivo para rejeitá-la”[xix].

Também ainda não descobrimos motivo para substituir nossa bandeira, de resto tão tropical e atrativa. Mas assim como o positivismo, todo nacionalismo, no sentido de maior ética com os patriotas do que com os não patriotas, deve ficar no passado.


 

BIBLIOGRAFIA

 

SABATO, Ernesto. Hombres y Engranajes. Buenos Aires: Seix Barral, edición especial para La Nación, 2006.

POPPER, K.. A Lógica da Pesquisa Científica. Trad.: L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. São Paulo: Editora Cultrix. 2016.

[i] SABATO, E.. Hombres y Engranajes. Buenos Aires: Seix Barral, edición especial para La Nación, 2006. P. 17.

[ii] SABATO, E.. Idem. P. 18.

[iii] POPPER, K.. A Lógica da Pesquisa Científica. Trad.: L. Hegenberg e O. Silveira da Mota. São Paulo: Editora Cultrix. 2016. P. 27.

[iv] POPPER, K.. Idem. P. 28.

[v] POPPER, K.. Idem. P. 28.

[vi] POPPER, K.. Idem. P. 31.

[vii] POPPER, K.. Ibidem.

[viii] POPPER, K.. Ibidem.

[ix] POPPER, K.. Idem. P. 32.

[x] POPPER, K.. Ibidem.

[xi] POPPER, K.. Ibidem.

[xii] POPPER, K.. Idem. P. 33.

[xiii] POPPER, K.. Ibidem.

[xiv] POPPER, K.. Ibidem

[xv] POPPER, K.. Idem. P. 35.

[xvi] POPPER, K.. Idem. P. 36.

[xvii] POPPER, K.. Idem. P. 38.

[xviii] POPPER, K.. Ibidem.

[xix] POPPER, K.. Idem. P. 32.

 

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4 comentários em “DOIS PILARES DA PESQUISA CIENTÍFICA: DEDUTIVISMO E FALSEABILIDADE

  1. Tópico muito relevante. Todo cientista precisa se esclarecer a respeito de como fazer ciência. Pessoalmente, estou no meio termo entre indutivismo e dedutivismo. Parto de dados experimentais para tirar conclusões de um certo universo (considero os dados dentro do meu conjunto de estudo, o qual sempre depende das condições experimentais), e ao mesmo tempo parto de hipóteses para direcionar as conclusões. Sendo mais especifica: não posso deixar de comentar da reação que tive quando li um dos últimos parágrafos: estava acompanhando a reflexão sobre os enunciados que não aceitam falsificação, concordando e entendendo os exemplos da matemática, da lógica… até que surgiu a questão metafisica. Essa não me parece uma propriedade tão fácil de aceitar como as outras!

    1. Olá Carina, muito obrigado pelo comentário! O Popper te recomendaria tentar ser mais dedutivista não tanto na prática científica, mas em sua reflexão e autocompreensão da ciência. Como em qualquer trabalho, às vezes começamos pelo “meio” e só depois construímos o “começo”. Com base em seu testemunho, aceitaria que a observação empírica possa estar no “começo prático” do trabalho científico, mas, para o dedutivismo, se ela estiver no “começo teórico” do pensamento científico, isso estragaria sua rigorosidade lógica ou não atenderia às suas mais altas aspirações. Quanto à metafísica: acredito que todo cientista deve aceitar a seguinte observação de Schopenhauer a esse respeito: “A base última na qual todo o nosso conhecimento e ciência repousa é o inexplicável [metafísico]. Sendo assim, toda explanação conduz de volta a ele, por meio de mais ou menos estágios intermediários, assim como o prumo encontra o fundo do mar ora com maior, ora com menor profundidade” (P/PII, p. 9). Além do atomismo citado no texto, poderíamos dizer que a ciência sempre “esbarra”, teórica e praticamente, em ideias metafísicas e com elas constrói o limite de seu próprio domínio: vide o papel da teleologia e a própria ideia de “força natural”, altamente metafísica, na investigação biológica, a necessidade de completude da série causal para a ocorrência de qualquer fenômeno (cuja causa, do ponto de vista empírico, regressa no tempo sempre ‘ad infinitum’, e por isso, não possui eficiência). Até mesmo o tão usado “câncer”, da medicina, para muitos autores, é uma espécie de “conceito-socorro” com uma forte carga mitológica. Um dos resultados da pesquisa de Popper, no fim das contas, é que embora ciência e metafísica sejam domínios diferentes, elas não estão separadas por um abismo intransponível, como o positivismo queria, pois como Nietzsche disse muito bem: todo fundamento científico (Grund) tem o seu próprio abismo (Abgrund).

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