O café é um "total veneno"?

Recentemente circulou em alguns sites um vídeo em que um conhecido cirurgião-plástico brasileiro formado nos EUA alerta a população brasileira a não beber café, porque trataria-se de um “total veneno” (link para o vídeo aqui).

Após falar um pouco sobre sua carreira e origens, o cirurgião vaticina que “o café é terrível”, dizendo que vai explicar por quê.

Apesar de ter sido amplamente divulgado, “curtido” e comentado, o vídeo carece de embasamento científico. O tal médico não cita nenhuma referência baseada em estudos científicos sobre o que afirma. De um modo geral, o vídeo se suporta em torno do chamado apelo à autoridade. Afinal, um médico formado em Harvard não pode estar errado!

Desse modo, o blog se propôs a avaliar o vídeo e apontar se há inconsistências, ou se o café realmente é esse perigo terrível!

Mas, afinal, há erros?

Vamos analisar algumas das alegações feitas:

A maneira como o café é processado seria muito antiga. Utiliza-se inclusive composto químico presente no gás usado pelos nazistas nos campos de concentração.

Como elucidou site especializado em café, o Zyklon B (o “gás usado pelos nazistas”) tinha entre seus componente o cianeto de hidrogênio que, antigamente, era usado como praguicida, inclusive em lavouras de café. Seu uso para esse fim, no entanto, não é mais permitido no Brasil.

Mas apesar de parcialmente verdadeira essa alegação, isso não se restringe ao café. Boa parte dos agrotóxicos que hoje utilizamos são derivados de substâncias inicialmente empregadas em contextos de guerra (como armas químicas, desfolhantes, etc.), como mostra este artigo. Se o problemas são os agrotóxicos e seus resíduos, a discussão é muito mais ampla do que só o café e daria um outro post inteiro. Mas, por ora, convém dizer que os últimos levantamentos não têm demonstrados níveis acima dos aceitáveis de resíduos nos grãos de café.

Durante o processo de secagem e processamento do café, tampouco se aplica tal composto (se você se interessar pode ler um guia da ESALQ/USP que explica passo-a-passo o processo – aplicação de cianetos não é uma das etapas).

O café bloquearia, no intestino, a absorção da vitamina D, de todas as vitaminas do complexo B e o cálcio.

Um artigo publicado na revista Química Nova buscou identificar (com base na literatura científica, vale frisar) o que haveria de mito e realidade no que se fala a respeito dos efeitos do café na saúde. Sobre a absorção da vitamina D e cálcio os estudos são inconsistentes e/ou inconclusivos, havendo a indicação de que, se houver um aporte correto de cálcio na alimentação, não há maiores problemas. No entanto, efetivamente se aconselha que idosos não ingiram exageradamente a bebida.

No que diz respeito às vitaminas do complexo B, há realmente desinformação por parte do vídeo. Inclusive, como explica o artigo da Q.Nova, o processo de torra do café faz com que seja produzida a vitamina B3 (niacina). Segundo estudos, o consumo de café pode ser, portanto, benéfico para evitar doenças decorrentes da ausência dessa vitamina, como a pelagra.

Café deixa pessoas irritadas, nervosas e tristes

A literatura parece sugerir justamente o contrário. Doses moderadas de café estão associadas a alterações positivas de humor; mantém ativas as funções cognitivas. Além disso, apresentam efeito ansiolítico e antidepressivo. Inclusive há vários estudos relacionando o consumo de café com menores índices de depressão e até mesmo menor risco de suicídio (veja publicação da Embrapa sobre o tema). Por fim, estudos indicam efeitos positivos do consumo de café no enfrentamento de doenças como Parkinson e Alzheimer.

Café estaria relacionado com as “doenças modernas”

Conclusões da revisão publicada na revista Química Nova:

  • Hipertensão: os estudos são inconclusivos a este respeito.

  • Diabetes: consumo de café tem sido (ao contrário do que se alega no vídeo) relacionado à uma diminuição na incidência do diabetes tipo II. Entre os motivos, estariam “redução da absorção da glicose no intestino” e inibição da formação de compostos tóxicos ao pâncreas.

  • Ficar cego: consumidores de café tem menor propensão ao blefaroespasmo, condição ocular que pode levar à cegueira.

  • Problemas auto-imunes: mais uma vez os dados são inconclusivos. Mas estudos bem fundamentados demonstraram que o café pode estar, inclusive, associado à uma diminuição no risco de algumas doenças autoimunes (confira aqui e aqui).

Por fim, um amplo e aprofundado estudo publicado na conceituada revista New England Journal of Medicine acompanhou 400 mil pessoas correlacionando risco de morte e consumo de café. Como conclusão final, homens e mulheres que tomam café têm menor risco geral de morte que os que não tomam. Veja excerto original do artigo, abaixo:

As compared with men who did not drink coffee, men who drank 6 or more cups of coffee per day had a 10% lower risk of death, whereas women in this category of consumption had a 15% lower risk” 

(Tradução livre: comparado com homens que não bebiam café, homens que bebiam 6 ou mais xícaras de café por dia tinham 10% menos risco de morte, enquanto mulheres nessa categoria de consumo tinham um risco 15% menor)

O mesmo artigo observou haver uma relação inversa entre o consumo de café e a prevalência de doenças como diabetes, doenças respiratórias e AVC e não haver qualquer relação entre o consumo da bebida e câncer.

Então o café ganhou a disputa e podemos tomar à vontade?

Não é bem assim. Como indicam alguns resultados de estudos, o café pode sim ser prejudicial em alguns contextos, principalmente se ingerido em altas doses (mais de 5 – 6 xícaras por dia). Em excesso, a bebida pode causar problemas estomacais, dificuldade para dormir, e mesmo um provável aumento na pressão arterial em pessoas suscetíveis.

Outro efeito negativo estudado é a provável elevação dos níveis de colesterol LDL (associado a certos problemas de saúde) em algumas pessoas. A bebida também pode interferir na absorção de ferro não-heme (proveniente de vegetais) quando ingerida nas refeições – por isso é bom evitar consumi-la logo após o almoço (principalmente se você for vegetariano).

Deste modo, o antigo conselho da parcimônia nunca é demais.

Moral da história

Não há problema em um médico fazer vídeos esclarecendo a população sobre temas que julgue relevante. Entretanto, mesmo que o profissional seja uma sumidade em sua área de atuação, ou que tenha se formado nas melhores universidades do mundo, isso não garante que absolutamente tudo que ele diz seja verdade. E isso vale para as diferentes áreas da ciência, não só a medicina.

Pra finalizar, fica um vídeo onde pesquisadores de (olhe só!) Harvard falam dos benefícios do café enquanto bebida rica em antioxidantes naturais e promotora de efeitos positivos à saúde.

How coffee loves us back

 

 

Crédito imagem de capa: bm.iphone

About Gustavo 23 Articles

Cientista de Alimentos e Mestre na mesma área. Especialista em Jornalismo Científico pelo LABJOR/UNICAMP, dedicando-se a atividades de divulgação científica.

3 Comentários

  1. Excelente artigo Gustavo!

    Me interessa particularmente porque eu tenho que controlar a ingestão do pretinho, pois tenho tendências a ter gastrite….hehehe. No mais, esclarecedor como sempre. Creio que, além de informar a população, um dos papéis importantes da divulgação científica é justamente este, de desmistificar ou desmascarar certas informações que acabam sendo viralizadas levianamente. Abs!

    • Obrigado André!

      Realmente, também acho importante buscar mais informação ao invés de só compartilhar determinados conteúdos. Nesse sentido a divulgação científica tem papel fundamental mesmo.
      Penso em trazer mais postagens nesse sentido. Sugestões de temas são bem vindas!
      Abraço!

  2. Parabéns Gustavo, o seu texto ficou ótimo!

    Você trouxe uma linguagem bem clara e objetiva sem perder as questões técnicas, esta instigante a leitura.
    Particularmente, eu gostei muito em saber a importância do café para doenças como Mal de Alzheimer e Parkinson, muitas famílias sofre com este mal.
    Agora, quanto ao médico em questão realmente temos que tomar cuidado com o que vemos pelas redes, independente da formação do profissional, temos que checar as fontes. Obrigada.

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