Alimentando a violência - 2/2

Na primeira parte dessa conversa, vimos que existem evidências que indicam haver relações importantes entre os tipos de alimentos que consumimos e a existência de comportamentos mais (ou menos) violentos nas pessoas. Também vimos que isso poderia ser extrapolado para o nível social e que sociedades com pior qualidade na alimentação podem apresentar maiores índices de violência (ainda que esse, obviamente, não seja o único aspecto a ser considerado).

Nesta segunda parte veremos trabalhos científicos que mostram como alguns nutrientes são “chave” nesse processo e como podemos utilizar esse conhecimento a nosso favor.

O caso do ômega-3

Os ácidos graxos ômega-3 (ou n-3) são apontados como nutrientes de extrema importância para diversos processos fisiológicos em seres humanos, com destaque para as funções cerebrais. Esse tipo de óleo não é produzido pelo organismo e, por isso, precisa ser obtido da alimentação. Encontrado, principalmente, em peixes de água fria, mas também em linhaça, chia e nozes, o nutriente nem sempre está presente em quantidades adequadas na

dieta da população – um dos motivos é a baixa disponibilidade desses alimentos em algumas regiões, o que encarece seu preço.

Semente de chia, rica em ômega-3. Crédito imagem: Jacqueline

 

Outro ponto importante, é que é preciso haver um balanço entre o consumo de n-3 e o de outros lipídios. Na dieta ocidental moderna, além de o consumo de n-3 estar abaixo do recomendado, o de óleos ômega-6 é alto demais. A proporção está desbalanceada, portanto. (Leia mais a respeito aqui).

 

Os ácidos graxos ômega-3 têm sido alvo de vários estudos que os relacionam com a modulação de comportamentos agressivos. Isso quer dizer que, para diversos pesquisadores, níveis abaixo dos recomendados deste tipo de nutriente na alimentação podem estar relacionados com uma maior tendência ao desenvolvimento de comportamentos violentos, além de estarem atrelados a padrões de comportamento nocivos.

De acordo com um estudo publicado em 2004, uma maior presença de DHA (ácido docosahexaenóico; um dos n-3 mais importantes) na dieta e o consumo de peixes ricos em n-3 pode estar relacionada a uma diminuição de características de hostilidade entre adultos jovens nos EUA. O estudo contou com mais de 3500 pessoas. Além das implicações que isso pode ter no contexto social quanto a comportamentos violentos, comportamentos considerados hostis podem ser um prenúncio de problemas cardíacos, garantem os autores.

Segundo B.J. Meyer e seus colaboradores, em trabalho no qual avaliaram 136 prisioneiro dos sistema penal australiano, constatou-se que os que possuíam menor índice de omega-3 no sangue eram mais agressivos e estavam mais propensos a desenvolver déficit de atenção.

De acordo com muitos cientistas, portanto, há suficiente evidência de que níveis baixos de determinados ácidos graxos poli-insaturados (essencialmente os n-3) desempenham um papel relevante nas desordens de agressividade.

Desnutrindo a violência

A partir dessa bem fundamentada hipótese, diversos pesquisadores [1] resolveram testar se melhorar os níveis de ômega-3 na alimentação das pessoas iria, na prática, diminuir quadros de violência em diversos cenários.

Um artigo, publicado em 2015, mostrou que uma suplementação de n-3 durante seis meses foi capaz de reduzir os níveis de agressividade e comportamento antissocial entre crianças de 8-16 anos durante o tratamento e mesmo após 6 meses de pararem de tomar o suplemento.

Um outro estudo, mostrou que a administração de DHA diminuiu a incidência de episódios de agressividade dentre estudantes universitários mesmo em períodos de maior stress, como exames finais.

Alguns estudos apontam ainda uma possível relação entre deficiência em níveis de ácidos graxos poli-insaturados e uma maior susceptibilidade ao abuso de drogas como cocaína, álcool ou tabaco. Neste último caso, um trabalho recente da Universidade Federal de São Paulo demonstrou que a ingestão controlada de ácidos graxos n-3 ocasionou menor dependência à nicotina.

Administrando suplementos de vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais à 231 prisioneiros na Escócia, C.B. Gesch e seus colaboradores conseguiram fazer com que estes se comportassem de maneira muito menos agressiva e violenta quando comparados ao grupo controle, que não recebeu a suplementação.

Uma conclusão

É central para toda esta discussão o fato de que as deficiências nutricionais estão, em larga medida, relacionados aos problemas de acesso aos alimentos. Assim sendo, o pano de fundo social e o aspecto nutricional da violência estão intimamente ligados. A efetivação da chamada Segurança Alimentar e Nutricional é, portanto, uma das mais urgentes e prioritárias ações – antes ainda de construir prisões ou investir em armamento – a serem tomadas por qualquer governo que quiser realmente resolver o problema da segurança pública.

 

[1] Pra quem se interessou, este artigo  (em inglês) da revista Neuroscience and Biobehavioral Reviews traz diversos outros estudos sobre o tema.

 

Crédito da imagem de capa: Bill Wilt

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Cientista de Alimentos e Mestre na mesma área. Especialista em Jornalismo Científico pelo LABJOR/UNICAMP, dedicando-se a atividades de divulgação científica.

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