Ecovilas: o que são (e o que não são)?

O modo como a maior parte das sociedades atualmente se organiza continua sendo altamente prejudicial ao ambiente. Transporte por automóvel, produção agrícola baseada em insumos químicos e altamente mecanizada, desperdício hiperbólico de alimentos, saneamento básico e tratamento de lixo ineficientíssimos e perda crescente e acelerada de matas e biodiversidade são apenas algumas marcas deste processo. Como resumido no Global Environment Outlook (relatório da ONU sobre a situação ambiental), “o curso atual é insustentável, e adiar as ações não é mais uma opção”.

Entretanto, as poucas políticas públicas aplicadas – quando aplicadas -, apesar de extremamente relevantes, ainda são insuficientes à medida que evitam entrar em choque com valores arraigados às civilizações capitalistas. O consumismo, a necessidade de buscar ou manter um “padrão de vida” elevado e o individualismo que coloca a satisfação de anseios pessoais como objetivo prioritário à despeito de danos que possam ser causados ao coletivo (como os ambientais, por exemplo) continuam norteando o modo de vida de grande parte das pessoas. Frente a este cenário, as políticas públicas ambientais acabam tendo dificuldades para se firmarem e tornarem-se efetiva e amplamente implementadas.

Justamente por discordar da ideia de que é possível atingir a sustentabilidade sem que ocorram mudanças profundas em nosso modo de vida (sejam estruturais ou a nível pessoal), surgiram as ecovilas.

De diferentes tipos e tamanhos, as ecovilas são comunidades que se formam com intuito de prover aos seus membros um modo de vida mais ligado aos recursos naturais, onde o respeito ao ambiente seja um pilar central. De acordo com uma definição possível, “as ecovilas são comunidades intencionais sustentáveis, isto é, são grupos de pessoas que se unem para criar um estilo de vida de baixo impacto ambiental e relações interpessoais mais cooperativas e solidárias. A vida numa ecovila se baseia nos seguintes pilares: pacifismo, autogestão, práticas ecológicas, laços comunitários, experiências poéticas ou transcendentes e busca de autoconhecimento”.[1]

Numa ecovila, portanto, as pessoas compartilham de ideais ecologicamente responsáveis e de um senso de coletividade que, a partir de seu ponto de vista, falta à sociedade urbana moderna.

Características das ecovilas

As ecovilas são baseadas em conceitos como permacultura e agroecologia. Assim, tudo é pensado para causar o menor impacto ambiental possível, aproveitando o que o ambiente fornece e devolvendo a ele, de forma ordenada, o que é excedente ou residual.

Grande parte das ecovilas produz o próprio alimento através de práticas agroecológicas, usando o mínimo necessário de insumos externos ao sistema agrícola e evitando agrotóxicos. Além disso, o uso de banheiros secos e outras medidas sanitárias ecologicamente eficientes evita a contaminação de solo e água com dejetos, ao contrário do que ocorre nos grandes centros urbanizados.

O documentário brasileiro abaixo explica um pouco mais sobre as características das ecovilas.

As ecovilas costumam promover também atividades de conscientização e disseminação de conceitos e ações que visem promover a sustentabilidade de forma integrada e ampliada.

O que não é uma ecovila

Desde há alguns anos, no entanto, têm surgido empreendimentos imobiliários que se autointitulam ecovilas. Muito provavelmente em virtude de uma declaração da ONU favorável às ecovilas que ganhou certo espaço na mídia, construtoras que pouco – ou quase nada – têm de ambientalmente corretas utilizam o termo como pura estratégia de marketing verde; no melhor estilo Greenwashing. Por proporem ações pontuais – ainda que importantes, vale frisar – como coleta seletiva, painéis solares ou “extensa área verde”, estes empreendimentos acabam tentando criar para si mesmos a imagem de uma “comunidade” totalmente aliada à natureza e preocupada com a questão ambiental. Infelizmente, na maioria das vezes, nada é mais falso.

É nítida a relação com o modo de vida insustentável descrito no primeiro parágrafo em tais empreendimentos. O uso de expressões como “alto padrão”, “ótima localização, próximo aos centros comerciais”, “bairro em constante valorização” ou mesmo “Espaço Gourmet” e “Club House” demonstram como a palavra “sustentável” é apenas mais uma entre tantas da propaganda. Além de se apropriarem do conceito de ecovila, e longe de buscar real contribuição para a construção de uma sociedade verdadeiramente sustentável, tais empreendimentos fazem o desserviço de passar à população a imagem de que sustentabilidade é “coisa de rico”.

[1] ROYSEN, R. Ecovilas e a construção de uma cultura alternativa (Dissertação de mestrado). Universidade de São Paulo. São Paulo, 2013, 245 p.

Crédito da imagem de capa: fr4dd

About Gustavo 23 Articles
Cientista de Alimentos e Mestre na mesma área. Especialista em Jornalismo Científico pelo LABJOR/UNICAMP, dedicando-se a atividades de divulgação científica.

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*