Para além do aquecimento global

Apesar de ainda presente em boa parte da mídia, tanto brasileira quanto internacional, a alegada divergência sobre as causas do aquecimento global não se sustenta na comunidade científica. Como revelaram diversas pesquisas de análises de artigos científicos publicados nas últimas décadas, o número de publicações que negam a ação humana como causadora do aquecimento global e das mudanças climáticas é totalmente inexpressivo. Tal consenso se mantém nas pesquisas de opinião realizadas entre os cientistas. No entanto, mesmo se, hipoteticamente, houvesse alguma dúvida sobre o caráter antropogênico das mudanças climáticas, isso deveria interferir nas medidas ambientais a serem tomadas? Dada a drasticidade dos problemas que afetam o ambiente em nossos dias, seria sensato deixar pra depois a tomada de ações se o planeta não estivesse aquecendo?

Cabe, portanto, uma análise dos outros problemas ambientais que estão intimamente ligados às causas do aquecimento global.

Mais carros, menos florestas

Importante começar pelo mais amplamente reconhecido causador do efeito estufa: a liberação de dióxido de carbono advindo da queima de combustíveis fósseis por veículos movidos à combustão, indústrias e usinas termoelétricas. Excluindo-se o “papel estufa” dos gases saídos dos escapamentos de veículos automotores, estes continuam a desempenhar problemas ambientais graves. Como ressaltam alguns autores, a queima de combustíveis fósseis libera uma ampla gama de compostos potencialmente prejudiciais à saúde humana, como monóxido de carbono, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e material particulado em suspensão. A exposição prolongada a níveis altos destas substâncias pode causar problemas pulmonares, cardíacos, inflamatórios e irritações (os maiores afetados são idosos e crianças). Levando-se em conta que, até tornar-se combustível, o petróleo precisa ser extraído e beneficiado, a lista de problemas ambientais relacionados torna-se bem grande – englobando os vazamentos nos oceanos, por exemplo.

Seguindo com os causadores do aquecimento global, no panorama brasileiro tem especial contribuição a queima de biomassa, seja através de queimadas em lavouras ou queimadas florestais. Muitas vezes elas se complementam, pois as florestas queimadas vêm a dar lugar para lavouras manejadas também com técnicas que envolvam o fogo.

No contexto agrícola, a queima de cana-de-açúcar em diversas cidades do estado de São Paulo está intimamente ligada ao aumento de atendimentos na rede hospitalar em decorrência de problemas respiratórios. O principal agente responsável seriam as partículas inaláveis provenientes da queima. Outro aspecto ambiental que não pode passar desapercebido é a queda na fertilidade dos solos decorrente da eliminação da micro e macrobiota, que têm importante função biológica de auxílio na fixação de nutrientes pelas plantas e aeração da terra. Também a umidade do solo é diminuída e processos como compactação e erosão são favorecidos. No que diz respeito ao panorama florestal, as queimadas, além dos problemas já relatados, causam perdas expressivas de biodiversidade, podendo acelerar processos de extinção de grande quantidade de espécies – de animais e plantas a micro-organismos. Os prejuízos do ponto de vista ecológico são imensuráveis e inúmeras espécies de outras áreas acabam sendo prejudicadas, além de comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem da floresta para a manutenção de seu modo de vida tradicional. Como recentemente vem se discutindo, a diminuição gradativa na cobertura vegetal pode causar ainda mudanças nos regimes de precipitação, inclusive em regiões bastante distantes, o que pode contribuir com cenários de seca e falta d’água que afetam milhões de pessoas [1].

Vida de gado

Outra grande causa do aquecimento global, especialmente em nosso país, é a pecuária extensiva, que toma lugar em grandes áreas de terra brasileiras. A questão está ligada ao aquecimento global de diversas maneiras. Primeiramente, o gado criado é responsável pela produção de imensas quantidades de gás metano através de seu processo de digestão. O metano é um gás muito mais prejudicial que o dióxido de carbono, em termos de aquecimento global, pois, dada a composição da molécula, absorve 23 vezes mais calor. Isso não seria um problema se houvesse poucas cabeças de gado; o número, no entanto, é enorme e segue aumentando. A nível de Brasil, estima-se que a população total de bois e vacas seja maior que a de seres humanos.

Crédito imagem: Jurgen Otto

Neste ponto, é preciso convir que, excetuado o efeito estufa, o metano não causaria grandes danos ambientais. Ocorre, porém, que a enorme quantidade de esterco da qual provém o metano pode contaminar mananciais de água e redes de abastecimento. O problema se estende também à criação em larga escala de outros animais.

Um aspecto central da questão é a maneira como se dá a expansão da pecuária em nosso país, basicamente tomando espaços antes ocupados por vegetação, frequentemente lançando mão da queima. Tal expansão causa, portanto, todos os outros problemas ambientais relatados anteriormente referentes à perda das florestas. Por fim, o gado causa impactos ao solo, principalmente a compactação, o que pode acentuar a degradação da terra após alguns anos e, no longo prazo, levar à desertificação.

Tendo em mente, portanto, que as ditas causas do aquecimento global se relacionam à uma série de outros efeitos ambientais adversos, conclui-se que combater o aquecimento global é combater também a maior parte dos problemas ambientais que causam grave diminuição de nossa qualidade de vida e constituem uma ameaça a muitas espécies. Portanto é, sim, urgente enfrentarmos as causas do aquecimento global, para conter significativamente a degradação ambiental que avança a níveis catastróficos.

[1] sobre o tema, veja a produção do INPE – O futuro climático da Amazônia

Crédito imagem de capa: Cristina Schultz

About Gustavo 23 Articles
Cientista de Alimentos e Mestre na mesma área. Especialista em Jornalismo Científico pelo LABJOR/UNICAMP, dedicando-se a atividades de divulgação científica.

1 Trackback / Pingback

  1. Ecovilas: o que são (e o que não são)? - CiênciaEmSi

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*